Este é aquele tempo em
que habitualmente recordamos com mais tristeza, os nossos mortos
queridos, sejamos, ou não, pessoas de fé. Hoje porém, e por contraste,
não posso iniciar este m2 sem vos dar a conhecer a enorme alegria que
invadiu a nossa família, pelo facto de termos mais um bebé entre nós!
Com efeito, uma nova vida traz geralmente consigo, uma alegria difícil
de ocultar , e aqui em casa acabamos de ser avós pela 2ª vez, desta vez
de um rapazinho...
...mas pronto, prometo
que me vou conter sobre as parecenças e outros pormenores, e de
imediato me referirei ao oportuno relatório da OCDE que veio alertar os
nossos governantes, exactamente para a ausência de uma adequada política
familiar em Portugal , servindo assim de mote a vários interessantes
artigos e comunicados- de que destaco, precisamente pela sua
acutilância e oportunidade, o da APFN.
A propósito da
necessidade sempre adiada de uma política de família com resultados
práticos visíveis ,cito alguns dos “desastrosos indicadores familiares”
que o comunicado da ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DAS FAMÍLIAS NUMEROSAS
menciona: “(...) redução do número de casamentos, disparo de divórcios,
redução da natalidade e aumento de nascimentos fora do casamento com
consequente aumento do número de “órfãos de pais vivos” e como
tal do crescente aumento de comportamento desviante e de risco
infantil e juvenil(...)”.
Este é, infelizmente,
um quadro bem realista, a que não se pode fechar os olhos !
Não me vou alongar
mais, no entanto, quanto aos conselhos da OCDE, de que já terão
conhecimento pelos jornais, pois hoje queria falar-vos sobretudo, de
três excelentes conferências a que tive o privilégio de assistir no
passado recente, e que apesar de muito diferentes quer pelos oradores,
quer pelos temas e pelo público, curiosamente contêm traços de ligação
entre si.
Começarei por referir
alguns aspectos da conferência da Profª Doutora Luísa Couto Soares, em
Lisboa, sobre “Cultura e estilo de vida na Europa actual”, em que fomos
logo de início genialmente confrontados , com uma descrição imaginária e
caricatural, do que seria uma hipotética vinda de Gulliver à Europa de
hoje e a leitura que faria dos nossos estranhos hábitos: “... gente
obcecada pela velocidade, movimento, ruído permanente, consumo viciante,
espaços gigantescos – armazéns- com gente a empurrar grandes carrinhos
cheios de coisas, gente que passa muito tempo a tratar do corpo, em
casas chamadas ginásios, muita actividade em cima de máquinas mas sem
saírem do mesmo sítio, sempre com uns aparelhos colados ao ouvido,
roupas sumárias, muito papel, muito lixo, muito trabalho, mas trabalho
sem sentido, caras sérias e tristes, um mundo sem referências
espirituais e sem valores (...)”, traduzindo assim a “apostasia
silenciosa” da actual cultura europeia ou “uma Europa sem alma”, no
dizer de João Paulo II, e uma vulnerabilidade simbolizada no curioso
título da obra de Edgar Morin , “ Fragilidade, o teu nome é Europa”.
A 2ª conferência
foi o ponto alto do 2º Encontro da AORN- Associação de Oficiais da
Reserva Naval- que teve lugar em Outubro último, em Portimão e
Mexilhoeira da Carregação, e teve como tema “Portugal, o Terrorismo e a
Segurança- o papel da Marinha”. Com uma primorosa organização, da
responsabilidade do seu incansável Presidente, Dr. Castro Moreira,
foram excelentes oradores convidados, o Gen. Rodolfo Bacelar Begonha, o
Dr. António Rodrigues Maximiano e o Alm. Tito Cerqueira. Também aqui se
falou de fragilidade e vulnerabilidade, desta vez porém, para referir a
evolução dos dois tipos de ameaça tradicional, interna e externa, que
hoje aparecem sob a forma de diferentes terrorismos, mas sempre como
ameaça assimétrica, marcada pela globalização ( “sem fronteiras
espaciais e compactada no tempo” como explicava o Prof Ernâni Lopes ),
e ainda pela letalidade e barbaridade. Ouvimos falar com proficiência
do tema, embora por razões de tempo de forma necessariamente genérica,
mas em dada altura o Gen. Begonha ,extrapolando o habitual sentido de
ameaça terrorista, falou mesmo de uma intencional e actual “ameaça
ideológica à família”- de que já algum tempo vem insistentemente falando
, o Prof. João Carlos Espada- pela equiparação de uniões de facto ao
casamento, legalização de casamentos de homossexuais, aborto e
eutanásia, etc. No debate, houve até quem perguntasse aos
conferencistas se “ a despromoção da dimensão espiritual do homem” não
seria também uma forma de terrorismo ideológico subtil que diariamente
nos entra casa adentro sob a forma de programas de televisão e Internet
escolhendo como alvo preferencial as nossas crianças.
Finalmente, na 3ª
conferência, mais recente, pude ouvir a Dra. Margarida Neto, Alta
Comissária para os Assuntos da Família, falar sobre “luzes e sombras” no
contexto actual da família, a partir de uma re-leitura da encíclica
“Familiaris Consortio”.
Porque o texto já vai
longo, recordarei apenas e em resumo, algumas das suas conclusões, que
de certo modo denunciam , tal como as duas conferências anteriores,
preocupação com a fragilidade e vulnerabilidade da nossa sociedade :
ante o pessimismo que
nos invade e nos leva a conceber frequentemente a vida “ como um risco
de que é preciso precaver-se”, urge, dizia a Dra Margarida Neto, apelar
à família para que seja “filtro e crítica desta cultura ( negativa)
dominante na escola, na rua, na TV e Internet” porque “ a nossa época
tem necessidade de um novo humanismo, de uma compreensão do sentido
último da vida e de uma conversão ( dos corações)” que só a educação do
Amor pode trazer.
Mesmo correndo o risco de já não terem paciência
para mais , deixem-me que vos diga, que às vezes dou comigo a pensar,
por estas ruas fora, prescrutando os rostos tensos e tristes com que me
cruzo :
Não é possível que
vivamos constantemente com o pavor de sermos atacados ! Não, o comum das
pessoas não vive nessa obsessão! E também não pode ser só a crise
económica...Mas então porquê que encontramos tanto pessimismo ? E
porquê que oscilamos tanto entre um humor televisivo idiota capaz de nos
fazer chorar a rir estupidamente e os dramas familiares reais que nos
arrastam para depressões, remédios e lágrimas sem fim? Porque há tantas
crianças em sofrimento? Onde é que estamos a falhar?
E então , encontro
quatro razões fundamentais :
-
falta-nos tempo para amar, porque não conseguimos gerir o nosso
tempo, distinguindo entre urgente e importante, capricho e necessidade;
-
falta generosidade e maturidade nos nossos casamentos;
-
falta-nos resiliência para enfrentar as normais e inevitáveis
adversidades da vida;
-
faltam-nos Fé, valores morais e sentido da vida, e com isso, a
noção de identidade e dignidade: não sabemos quem somos, o que aqui
fazemos, donde vimos , nem para onde vamos. E por isso nos sobra o
medo.
Tenho a certeza de que
vos obriguei a saltitar, uma vez mais , de tema em tema, e peço-vos
desculpa por esta dispersão , mas de uma coisa estou convicta : a maior
ameaça que podemos temer não reside nos terroristas fanáticos e
fundamentalistas, ou numa guerra de civilizações; o perigo maior está
dentro de nós , já e agora, quando , dia após dia, nos deixamos vencer
pelo relativismo e pela indiferença, pelo comodismo e respeito humano,
que nos levam a cruzar os braços e a pensar que já nada podemos fazer
para mudar o mundo em que vivemos!
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