2 Março 2004- O meu m2

Aguardo luz verde, junto ao semáforo da minha rua, e embora sabendo que é urgente escrever sobre o recente Congresso “Pais no séc XXI- um desafio a vencer !!!” , sinto-me ainda demasiado dispersa para começar a escrita... e pouso um olhar distraído na tabuleta da tasca da esquina , onde se lê em letras grandes  -  “ Hoje:  Pézinhos de coentrada”, ( ai, os famigerados “pézinhos e  mãozinhas” que a minha mãe tão sabiamente nos fazia provar e que eu tanto detestava, quando era pequena! Aquilo é que era saber educar!). Logo a seguir, vejo um enorme “outdoor” anunciando uma peça de teatro com referência a qualquer coisa como nove dedinhos (?)e do outro lado um pé enorme segurando entre os dedos um telemóvel para divulgar o sistema  de falar sem mãos. (Olho para as minhas mãos geladas e enrugadas, e de imediato me lembro do belo conto de Trindade Coelho(?) sobre “As mãos “ queimadas e cheias de cicatrizes da mãe que salva o filho das chamas....lá estou eu em plena divagação...).

Entre mãos e pés, regresso a casa, recordo uma imagem projectada no écran da sala, mostrando uns pézinhos descalços, de criança, dando passos sobre uns pés calçados de pai ( e revejo-me nos  anos distantes da minha infância, a aprender a dançar, terna e confiantemente, sobre os sapatos do meu pai!) e... começo, finalmente, o “flash-back” do Congresso deste último fim de semana, na Universidade Católica de Lisboa !

Meia dúzia de Associações – AFEP- Associação para a Formação Parental, Escola de Pais Nacional (do Porto), Associação Famílias (de Braga), MDV-Movimento

de Defesa da Vida, CEPCEP- Instituto de Ciências da Educação da Universidade Católica de Lisboa, e CENOFA- Centro de Orientação Familiar, juntaram-se há cerca de um ano atrás para iniciarem os primeiros passos da constituição de uma Federação de Associações para a Formação Parental. Agora, aproveitando a feliz iniciativa e a impecável capacidade de liderança da AFEP, no sentido de organizar um Congresso sobre Educação Parental, a Federação (FEPAFP) veio dar-se a conhecer, contando com o apoio claro e incondicional, desde a primeira hora, da jovem e enérgica Coordenadora Nacional para os Assuntos de Família, Drª Margarida Neto.

Neste ano de celebração mundial dos dez anos sobre o Ano Internacional da Família, em plena acesa discussão nacional sobre legislação referente a abortos, embriões congelados e educações sexuais, com o pano de fundo da crise nacional de economia, valores, auto-estima e cultura, não podia ter sido mais feliz a coincidência de serem precisamente meia dúzia de Associações “carolas”, na sua maioria trabalhando e sobrevivendo sem apoios estatais e à custa de verdadeiro e generoso voluntariado, a virem falar da necessidade de ajudar os pais na sua irrenunciável tarefa de primeiros educadores !

De facto, ali naquela casa, tendo sempre presentes as gritantes necessidades de apoio das famílias mais  em risco e das suas crianças, bem como das famílias – tantas vezes esquecidas! – ditas normais e clássicas, passaram muitas e variadas pessoas, que quer como oradores, moderadores ou assistentes, puderam dar e receber, ouvir e aprender, e viver momentos de grande intensidade e riqueza. Ali ouvimos as vozes sábias de mestres sem presunção , as experiências humanamente comovedoras de quem não se envergonhou de abrir o coração e falar da sua vida pessoal enquanto pais e enquanto filhos , e as vozes ternas e argentinas de crianças ricas e pobres.

Não cabe aqui, nem seria capaz de resumir ou “revisitar”- como tão bem soube fazer a relatora do Congresso – todos os grandes momentos do Congresso.  Contudo, seguindo o modelo “impressionista” proposto por um famoso político ali presente - entre outros que vieram dar o seu precioso aval à iniciativa... deixo-vos algumas pinceladas de ideias-chave e testemunhos ali transmitidos :

  1. “...mesmo quando o não conseguimos manter, o modelo ideal de família é ,e continuará sempre a ser, a família constituída por mãe, pai e filhos, num ambiente de permanência e estabilidade...” ( Prof Rebello de Sousa );
  2. “...a alta taxa de divorcialidade e de mulheres a trabalharem em “full –time” são dados estatísticos altamente preocupantes da realidade portuguesa actual ...”, “ os pais - em regra- são peritos relativamente aos seus filhos, querem o melhor para os seus filhos, gostam de partilhar as experiências educativas, têm frequentemente sentimentos ambivalentes e crescem na alternância de tentativa/ erro ( Prof Gomes Pedro)”;
  3. “ ...é preciso ouvir os filhos com o coração...” , “Os meus pais têm sido a minha retaguarda familiar fantástica...estou sózinha com o meu filho há cinco anos, mas o meu filho tem o melhor pai que ele poderia ter tido”, “...não quero impor nenhum modelo a ninguém, mas eu preciso de ir diariamente à  Missa das sete à Igreja, para – como diz o Padre Zé Manel- “ ali juntar tudo o que andámos a dispersar durante o dia...” ( Laurinda Alves);
  4. “...aprende-se a amar em casa, com o exemplo, sempre vi os meus avós unidos e felizes , o mesmo com os meus pais, e  espero- agora que tenho a minha sogra a viver lá em casa , como nas imagens do National Geographic em que quando a leoa está velha e doente é levada para junto da manada e não a deixam só ! – espero que os meus filhos saiam doutorados em amor !...”(António Pinto Leite);
  5. “...da relação com os meus pais queria falar aqui em três aspectos essenciais para a minha formação: o exemplo moral e espiritual como católicos comprometidos, animadores, abertos , no serviço à paróquia, aos vizinhos, à família alargada, aos outros; o optimismo entusiasta com que sempre nos animaram a sermos autónomos e nos fizeram olhar as coisas bonitas da vida, elogiando e ensinando a ver o lado positivo de tudo ; o porto de abrigo que são, em todos os sentidos, mesmo agora que já não vivo em casa...”( Nuno Archer de Carvalho).

É certamente uma injustiça deixar tanto  por dizer e não citar sequer os nomes de  tantos outros que por ali passaram durante aqueles intensos dois dias , mas o” m2”  já vai longo...para terminar porém, ficaria mal comigo própria se não felicitasse aqui a pessoa  mais responsável por esta importante iniciativa e que mais incansavelmente contribuiu para que ela se concretizasse : a presidente da AFEP e da Federação, Conceição Seabra Gomes ! Parabéns, São, as famílias agradecem-lhe!

       Valeu bem a pena !

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