Aguardo luz verde, junto
ao semáforo da minha rua, e embora sabendo que é urgente escrever sobre o
recente Congresso “Pais no séc XXI- um desafio a vencer !!!” , sinto-me
ainda demasiado dispersa para começar a escrita... e pouso um olhar
distraído na tabuleta da tasca da esquina , onde se lê em letras grandes
- “ Hoje: Pézinhos de coentrada”, ( ai, os famigerados “pézinhos e
mãozinhas” que a minha mãe tão sabiamente nos fazia provar e que eu tanto
detestava, quando era pequena! Aquilo é que era saber educar!). Logo a
seguir, vejo um enorme “outdoor” anunciando uma peça de teatro com
referência a qualquer coisa como nove dedinhos (?)e do outro lado um pé
enorme segurando entre os dedos um telemóvel para divulgar o sistema de
falar sem mãos. (Olho para as minhas mãos geladas e enrugadas, e de
imediato me lembro do belo conto de Trindade Coelho(?) sobre “As mãos “
queimadas e cheias de cicatrizes da mãe que salva o filho das chamas....lá
estou eu em plena divagação...).
Entre mãos e pés, regresso
a casa, recordo uma imagem projectada no écran da sala, mostrando uns
pézinhos descalços, de criança, dando passos sobre uns pés calçados de pai
( e revejo-me nos anos distantes da minha infância, a aprender a dançar,
terna e confiantemente, sobre os sapatos do meu pai!) e... começo,
finalmente, o “flash-back” do Congresso deste último fim de semana, na
Universidade Católica de Lisboa !
Meia dúzia de Associações
– AFEP- Associação para a Formação Parental, Escola de Pais Nacional (do
Porto), Associação Famílias (de Braga), MDV-Movimento
de Defesa da Vida, CEPCEP-
Instituto de Ciências da Educação da Universidade Católica de Lisboa, e
CENOFA- Centro de Orientação Familiar, juntaram-se há cerca de um ano
atrás para iniciarem os primeiros passos da constituição de uma Federação
de Associações para a Formação Parental. Agora, aproveitando a feliz
iniciativa e a impecável capacidade de liderança da AFEP, no sentido de
organizar um Congresso sobre Educação Parental, a Federação (FEPAFP) veio
dar-se a conhecer, contando com o apoio claro e incondicional, desde a
primeira hora, da jovem e enérgica Coordenadora Nacional para os Assuntos
de Família, Drª Margarida Neto.
Neste ano de celebração
mundial dos dez anos sobre o Ano Internacional da Família, em plena acesa
discussão nacional sobre legislação referente a abortos, embriões
congelados e educações sexuais, com o pano de fundo da crise nacional de
economia, valores, auto-estima e cultura, não podia ter sido mais feliz a
coincidência de serem precisamente meia dúzia de Associações “carolas”, na
sua maioria trabalhando e sobrevivendo sem apoios estatais e à custa de
verdadeiro e generoso voluntariado, a virem falar da necessidade de ajudar
os pais na sua irrenunciável tarefa de primeiros educadores !
De facto, ali naquela
casa, tendo sempre presentes as gritantes necessidades de apoio das
famílias mais em risco e das suas crianças, bem como das famílias –
tantas vezes esquecidas! – ditas normais e clássicas, passaram muitas e
variadas pessoas, que quer como oradores, moderadores ou assistentes,
puderam dar e receber, ouvir e aprender, e viver momentos de grande
intensidade e riqueza. Ali ouvimos as vozes sábias de mestres sem
presunção , as experiências humanamente comovedoras de quem não se
envergonhou de abrir o coração e falar da sua vida pessoal enquanto pais e
enquanto filhos , e as vozes ternas e argentinas de crianças ricas e
pobres.
Não cabe aqui, nem seria
capaz de resumir ou “revisitar”- como tão bem soube fazer a relatora do
Congresso – todos os grandes momentos do Congresso. Contudo, seguindo o
modelo “impressionista” proposto por um famoso político ali presente -
entre outros que vieram dar o seu precioso aval à iniciativa... deixo-vos
algumas pinceladas de ideias-chave e testemunhos ali transmitidos :
- “...mesmo quando o não
conseguimos manter, o modelo ideal de família é ,e continuará sempre a
ser, a família constituída por mãe, pai e filhos, num ambiente de
permanência e estabilidade...” ( Prof Rebello de Sousa );
- “...a alta taxa de
divorcialidade e de mulheres a trabalharem em “full –time” são dados
estatísticos altamente preocupantes da realidade portuguesa actual ...”,
“ os pais - em regra- são peritos relativamente aos seus filhos, querem
o melhor para os seus filhos, gostam de partilhar as experiências
educativas, têm frequentemente sentimentos ambivalentes e crescem na
alternância de tentativa/ erro ( Prof Gomes Pedro)”;
- “ ...é preciso ouvir
os filhos com o coração...” , “Os meus pais têm sido a minha retaguarda
familiar fantástica...estou sózinha com o meu filho há cinco anos, mas o
meu filho tem o melhor pai que ele poderia ter tido”, “...não quero
impor nenhum modelo a ninguém, mas eu preciso de ir diariamente à Missa
das sete à Igreja, para – como diz o Padre Zé Manel- “ ali juntar tudo o
que andámos a dispersar durante o dia...” ( Laurinda Alves);
- “...aprende-se a amar
em casa, com o exemplo, sempre vi os meus avós unidos e felizes , o
mesmo com os meus pais, e espero- agora que tenho a minha sogra a viver
lá em casa , como nas imagens do National Geographic em que quando a
leoa está velha e doente é levada para junto da manada e não a deixam só
! – espero que os meus filhos saiam doutorados em amor !...”(António
Pinto Leite);
- “...da relação com os
meus pais queria falar aqui em três aspectos essenciais para a minha
formação: o exemplo moral e espiritual como católicos comprometidos,
animadores, abertos , no serviço à paróquia, aos vizinhos, à família
alargada, aos outros; o optimismo entusiasta com que sempre nos animaram
a sermos autónomos e nos fizeram olhar as coisas bonitas da vida,
elogiando e ensinando a ver o lado positivo de tudo ; o porto de abrigo
que são, em todos os sentidos, mesmo agora que já não vivo em casa...”(
Nuno Archer de Carvalho).
É
certamente uma injustiça deixar tanto por dizer e não citar sequer os
nomes de tantos outros que por ali passaram durante aqueles intensos dois
dias , mas o” m2” já vai longo...para terminar porém, ficaria mal comigo
própria se não felicitasse aqui a pessoa mais responsável por esta
importante iniciativa e que mais incansavelmente contribuiu para que ela
se concretizasse : a presidente da AFEP e da Federação, Conceição Seabra
Gomes ! Parabéns, São, as famílias agradecem-lhe!
Valeu bem a pena !
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