Sexta-feira, fim de tarde, prestes a partir para o
Algarve, malas a postos, batem-me à porta., para me dizerem isto, em resumo:
“...e a sua Associação, essa tal ACMedia não faz nada? Não emite comunicados
sobre esta pouca-vergonha toda que os telejornais sucessivamente vão tratando
com pormenores cada vez mais escabrosos? E o quê que eu vou dizer aos meus
filhos?...Daqui a pouco nem o telejornal se pode ver...!” Pois é verdade, o telejornal é de facto, um programa que
não deve ser visto pelas crianças, e não se trata de uma conclusão de agora,
embora se torne mais evidente neste momento! Por ali passa tudo o que
dificilmente se pode explicar a uma criança com menos de 10 anos...mas se por
acaso, já viram, ao menos que os pais não actuem como se nada se tivesse
passado, ou não pensem que devem ser os professores a explicar lá na escola! Como dizem o Professor Doutor Manuel Pinto e a Drª Sara
Pereira, (Universidade do Minho), os pais têm de ser “mediadores”, isto é,
explicar e desmontar as mensagens da televisão, gastar tempo com os seus filhos,
falando do que ali vêem. Depois, é preciso reconhecer, com um mínimo de sentido
crítico, que já tudo está a ser dito e redito por tanta gente – jornalistas,
deputados, associações, partidos – que não creio ser preciso carregar mais nas
tintas...em defesa do respeito pelo código deontológico ou do reconhecimento do
papel da Comunicação Social na descoberta de todo este incrível caso. No entanto, já agora, gostaria de dizer que falar de
abuso, já indicia sempre, alguma coisa negativa. Abuso sexual, seguramente é
algo de muito mau. Mas, abuso sexual de crianças, só por si mais vulneráveis e
ainda por cima, entregues à guarda de uma Instituição credível, porque
desprotegidas e carenciadas do ponto de vista socio-económico e afectivo, torna
tudo pior ainda. Porém, como se não bastasse, iniciá-las na homossexualidade, no
vício e no negócio mais vil que é a venda do próprio corpo em troca da ilusão
(?) de carinho e atenção e de uns míseros dinheiros e presentes, significa na
verdade, todo um conjunto de crimes que merecem castigo, repúdio e indignação
geral. A verdade tem de vir a lume, doa a quem doer, por mais tempo que tenha
decorrido e as malhas desta terrível rede têm de ser descobertas por
instituições que funcionem mesmo e não se vendam a preço algum. Isso porém, não justifica, nem significa trazer à
televisão, seja a que hora for, precisamente no auge das transmissões, aspectos
profundamente sórdidos e escandalosos, para pasto da terrível morbidez, histeria
e curiosidade do povo português, a que todos pertencemos. Não podemos exigir julgamentos sumários e justiça popular!
Devo felicitar aliás, as várias vozes sensatas e
insuspeitas, vindas de diferentes quadrantes políticos, que se insurgiram contra
este tipo de jornalismo que não honra, nem dignifica quem o faz, por mais que
alguns digam e receiem que isso possa significar a defesa da censura de outros
tempos! Recordo concretamente, a deputada Maria Elisa no Parlamento (apesar de
tão incompreendida!), e vários artigos e editoriais no Expresso, Público e Rádio
Renascença, aos quais tive acesso directo. Felicito também, os participantes no excelente programa
“Com sal e pimenta”, deste sábado, na Rádio Renascença. Infelizmente, à semelhança da mancha negra do “Prestige”
que parece não parar de aumentar, para mal de tanta gente afectada e de todo o
ambiente em redor, também a gravidade deste caso ultrapassa o espaço da
Instituição atingida, afecta muita gente honesta e intocável que ali tem
trabalhado e poderá vir a ter até uma repercussão tremenda no relacionamento
afectivo normal entre crianças e adultos, na escola, na rua e em toda a parte.
Efectivamente, existe uma outra terrível “doença” que se chama “desconfiança” e
que insidiosamente, à maneira do que já acontece na Bélgica, em França e em
Inglaterra, começa a minar o convívio social de forma assustadora, transformando
todos os gestos normais de simpatia – tão próprios do nosso povo- em sinal
suspeito passível de esconder más intenções e tendências estranhas! Um sorriso,
uma festa numa criança que vai no autocarro ao nosso lado, dar colo aos que não
são nossos filhos, ajudar uma criança a atravessar a rua, consolar a que
chora...serão gestos a evitar?......Passaremos a desconfiar de tudo e de todos?
Ensinaremos os nossos filhos e alunos a verem um mundo povoado de monstros mais
assustadores e perigosos que a fantasia dos Harry Potter? Sinto tristeza, vergonha, apreensão...que mundo é este em
que vivemos? Como pudemos cair tão baixo? A caminho do Algarve, ouvi ainda o final dum excelente
programa de Isabel da Nóbrega, “O prazer da leitura”, na Antena 1. Evocando um
excerto de um romance de Teixeira Gomes, falava na bela Ponta do Altar e na
Ponta da Piedade, o que me fez desejar revisitar esses locais, até pelo
entusiasmo e paixão com que foram mencionados. Antes de regressar a Lisboa, voltei a subir até à Ponta do
Altar, à luz do entardecer, olhei o mar calmo e imenso, a vastidão do céu
carregado de nuvens cinzentas e ameaçadoras e lavei os olhos da alma. Regressei calma e segura de que aquele farol continuará a
iluminar a noite escura de pescadores e mareantes, por maior que seja a
tempestade. Também a nós, aqui em terra, não nos faltará a Luz!