Irina pode agora, já na sua terra,
voltar a ser a Drª Irina, economista que é, e o seu Marido, engenheiro,
título a que tem direito.
Ninguém noticiou a sua chegada, nem a sua partida.
Contudo, quero fazê-lo eu!
Estas linhas são uma curta, mas
merecida homenagem à mulher estrangeira, corajosa e lutadora, que
conheci, e que com inteligência, sensibilidade e delicadeza, soube
superar as fronteiras da língua e da indiferença, e adaptar-se a
difíceis circunstâncias, ora cuidando de doentes acamados, ora fazendo
os mais humildes trabalhos domésticos em casas e restaurantes. Com o
marido e a filha, viveu profundamente angustiada aqueles primeiros
momentos de decepção, quando enganada, julgando ter pago o direito a
viagem, casa e emprego, aqui chegou e, sem casa, nem pão, nem esperança
de emprego, teve de viver na rua e alimentar-se dos restos dos caixotes
de lixo dos supermercados até encontrar quem lhes desse uma mão e os
encaminhasse...
Adeus, querida Irina ! Vamos sentir
a tua falta em nossa casa, a falta do teu sorriso sempre amável, da tua
discreção e afabilidade, do teu trabalho e serenidade! Obrigada, Irina!
És uma lição para todos nós ! Contigo aprendemos melhor a compreender a
realidade destes milhares de pessoas que atravessam fronteiras em busca
de trabalho e de uma vida melhor, pessoas com quem nos cruzamos e cuja
dureza de vida ignoramos, mas que também ajudam o nosso país a crescer
e têm direito a uma vida mais digna!
... Os nossos voos cruzaram-se nos
céus, estou certa! A Irina partiu e eu acabo de chegar de um maravilhoso
fim-de-semana numa terra abençoada, onde lindíssimas hortenses roxas e
cor-de-rosa ladeiam as estradas estreitas. O clima sub-tropical
favorece a vegetação endémica exuberante,
e sol e chuva constantes parecem
jogar às escondidas com o turista mais incauto. Paisagens maravilhosas,
lagoas, colinas, vales, bosques, pastagens e mar azul todo em volta,
povoações bem cuidadas, limpas e floridas, e gente simples, de olhar
lavado e acolhedor, tudo isto faz da ilha de S. Miguel, nos Açores, um
paraíso a não perder!
Aproveitando uma breve ida do meu
marido, em trabalho, ficámos nesse fim-de-semana nas Furnas, coincidindo
com as festas locais, em honra de Sta Ana, impecavelmente preparadas com
o empenho do todos os locais ! As ruas atapetadas com pétalas de
diferentes cores para receberem a passagem da procissão, as janelas
enfeitadas com colchas coloridas, famílias inteiras nas ruas, três
bandas de música, fanfarras, foguetes, quermesse , luzes, bandeiras e
enfeites. Açoreanos emigrados nos Estados Unidos e Canadá estavam também
de visita às suas terras, e cumpridas as promessas ao Senhor Santo
Cristo dos Milagres, no célebre Convento da Esperança, em Ponta
Delgada, ali estavam também nas Furnas, lado a lado com os seus
conterrâneos e parentes mais pobres, caminhando atrás dos andores na
procissão da sua santa protectora.
Fui ,curiosa, acompanhando quanto
possível, o que ali se passava, recordando , também eu, saudosa, as
festas do S. Tiago, da minha meninice nas termas minhotas de Caldelas!
Em dada altura, apercebi-me da
presença de um homem ,deficiente, que na Igreja, a pouca distância de
mim, cantava, sorridente e felicíssimo, a plenos pulmões , os cânticos
da Missa, sem despegar os olhos do andor de Sta Ana. À sua volta,
ninguém parecia estranhar o seu enlevo, nem a desafinação com que
cantava. Mesmo atrás de mim, porém, de repente, ouço um irresistível e
incontido ataque de riso . Logo de seguida, uma avó simples, serena e
compreensiva, repreendia o neto adolescente, dizendo a meia voz,
apenas:- “E se fosses tu? Já pensaste que podias ser assim como ele? Não
tens o direito de fazer pouco...ele gosta tanto de cantar...”.
Regressei com uma imensa vontade de
lá voltar ! E não foi só pela beleza local , mas também pelo acolhimento
e simpatia das pessoas! Por isso, ali deixei alguns dos “Apontamentos do
Cenofa”, pequenos artigos de grande qualidade sobre temas da
actualidade, com a certeza de que muitos os lerão e apreciarão! Ali, em
S. Miguel, onde em tempos passados o Cenofa já fez cursos de Orientação
Familiar, onde se encontram famílias e professores sequiosos de apoio na
educação dos seus filhos e alunos, ali onde há pequenos grupos de gente
empenhada em organizar actividades de tempos livres para que muitas
crianças e jovens possam estar saudavelmente bem ocupados , ali há muito
trabalho a fazer!