Lá fora, no jardim, apesar do mau tempo, vejo gente a
passar. Uns rápidos, outros lentos, crianças soltas ou de mão dada, guiando os
pais por entre canteiros. E nós vendo, sem sermos vistos. Através da janela do Auditório, eu vejo o dia cinzento, a
chuva a cair e as rosas a despontar. Vermelhas e brancas ali mesmo, do outro
lado do vidro. Por entre discursos, Power-Points e mesas-redondas
sucessivas, vou pensando neste “ meu metro quadrado” ainda em gestação... ... Chuvas, tornado, raios e coriscos, ventos e
tempestades, de tudo tem havido um pouco, esta semana, varrendo os céus de lés a
lés, a condizerem talvez, com o desconcerto e a crispação dos homens, com as
suas greves, exaltações e protestos, concentrados sobretudo, nesta nossa cidade
de Lisboa. Entre os muitos encontros, debates e discursos que
caracterizaram a semana, optei por assistir a parte do Congresso da Prosalis
(Projecto de Saúde em Lisboa) sobre “Estilos de vida e comportamentos aditivos”,
e sábado à tarde fui ao 1º Encontro do Fórum para a Liberdade de Educação, que
reuniu 1000 pessoas na Gulbenkian. Curiosamente, alguma coisa mais tiveram em comum, para
além do local de realização. Do muito de interessante que ali ouvi e aprendi, no XII
Congresso Internacional promovido pela Prosalis ( ONG dedicada à meritória luta
contra a droga em diferentes meios, inclusivamente nas prisões ) gostaria de
registar aqui algumas das frases , sem que contudo vos possa transmitir - com
grande pena minha - a força e convicção com que foram ditas... : “...o tema da SIDA tem sido detonador de várias políticas
e centro de preocupações há vários anos...apesar de tudo e dos grandes
investimentos, a SIDA continua a aumentar em Portugal,... também a droga
continua a aumentar, e verifica-se que muitos jovens estão informados, mas não
aplicam o que sabem... vale a pena perguntar: mas se não está a resultar, que
mais poderemos fazer? Porquê na nossa sociedade continuamos a correr tantos
riscos a nível de comportamentos? Sida, toxicodependência, tabaco, álcool,
acidentes rodoviários...Trata-se de uma questão cultural de fundo...trata-se de
educar, mas que Educação fazemos nós para a Responsabilidade? Porquê tanta
precocidade nas relações sexuais? E por que deixamos que continue a entrar droga
nas prisões? Porque nos falta coragem para enfrentar as questões de frente?
Porque nunca avaliamos os resultados obtidos? Porquê que só actuamos com o
“penso rápido” para impedir que alastre o mal e tentando curar o que não
conseguimos, como se vê, em vez de irmos às causas? O que está em causa é a
dignidade do homem, o sentido da vida...importa pois, antes de mais, dotar as
crianças, os jovens, as pessoas, de capacidade de juízo e critério, para
avaliarem com sentido de responsabilidade o seu posicionamento e depois, ao
lado, haverá certamente farmácias com penso rápido, seringas, preservativos,
etc., para os que quiserem optar por continuar a correr riscos...” (Desculpe,
António Maria, ilustre e combativo deputado, se não consigo pôr aqui exactamente
o bem que disse e como o disse!)... Por outro lado, do que falou a Madalena, técnica de Vale
d’Acor, – num turbilhão de autoridade de quem sabe e pratica o que diz, ama o
que faz e aqueles a quem trata e num tom que envolve e arrebata – retirei também
algumas notas: “...A toxicodependência põe no banco dos réus a cultura dominante
em que estamos inseridos e da qual todos somos cúmplices, caracterizada pelo
consumo compulsivo! Consumo.com!...é preciso aprendermos todos a adiar a
gratificação imediata e ajudar os outros a aprenderem...é necessário mudar
comportamentos (sexo seguro é a mentira do século!)...se continuamos a promover
uma escola que se diz neutral, então criemos “escolas com rosto”, onde se aposte
na pessoa, no protagonismo dos pequeninos...” Será um tanto injusto por certo, para com outros
brilhantes oradores e suas intervenções de grande qualidade, resumir tudo o que
ouvi a estas breves citações, mas estas são efectivamente aquelas que permitem
fazer já, de imediato, a ponte para o Encontro de sábado, sobre Liberdade de
Educação. Foi bem importante o que ali se passou e contudo, curiosamente, não
creio que a Comunicação Social tenha dado relevo a qualquer dos eventos! Neste
estiveram presentes pais e educadores vindos dos mais diversos pontos do país,
para ouvirem interessantíssimas intervenções – com particular destaque, para os
professores Mário Pinto e João Carlos Espada, em defesa da Liberdade de
Educação, da necessidade de dar autonomia às escolas, igual tratamento às
escolas públicas e privadas e financiamento às famílias, para que escolham a
escola que preferem e o projecto educativo que melhor as serve, em vez de manter
o actual sistema. Efectivamente, num tempo em que se verifica que os
resultados obtidos pelos alunos portugueses na maioria das nossas escolas não
são satisfatórios, apesar dos investimentos governamentais e dos esforços de
tantos, e sabendo-se que estamos na cauda da Europa não só em matéria de
resultados escolares, número de anos de escolaridade, grau de iliteracia e
abandono escolar, mas também em número de acidentes rodoviários, em crescimento
de sida, e em baixa produtividade... (tudo dito assim, misturado, talvez até
pareça um tanto estranho) de facto, é tempo de perguntar: Mas o que está em
causa afinal, é ou não é, uma questão de fundo, fundamental, que tem a ver com
modificação de comportamentos e portanto com Educação? Estamos todos certos que
sim e que é aí que temos de intervir! Os pais como primeiros Educadores, por direito e por
dever, têm ou não têm liberdade de escolher a escola onde querem pôr os seus
filhos? E a resposta é não, porque de facto, apesar de ser um direito consignado
na lei, na prática só podem pôr os filhos na escola que lhes ficar mais próxima
do ponto de vista geográfico e independentemente de gostarem ou não,
acrescentando que só podem optar por uma privada se tiverem dinheiro para a
pagar! E há algum meio já experimentado noutros países, em que se possa garantir
essa liberdade de Educação, que já está prevista nas nossas leis? E a resposta,
como ali naquele Fórum foi demonstrado de muitas e brilhantes maneiras, é : Sim,
há. É preciso apenas, ter coragem para romper o sistema actual, quebrar a
tradição de financiar escolas, para passar a financiar as famílias, permitindo
que estas através por ex. de um cheque-educação, ou qualquer outro modelo de
financiamento, utilizem esse dinheiro para pagar a escola que escolherem, sendo
que por seu turno, as escolas privadas devem ter autonomia para criarem e
gerirem o seu próprio projecto educativo e receber igual tratamento que a escola
pública, que por seu turno também tem de responder pelo seu próprio projecto
educativo. Valeu a pena! Parabéns aos organizadores! Olho de novo, através do vidro embaciado pelo calor de
tanta gente e mesmo assim, vejo as roseiras. Há-as vermelhas e brancas. Estão
viçosas. Bem cuidadas, podadas, regadas, crescem, seguramente perfumam e cumprem
o seu ciclo natural. Umas serão porventura mais altas e mais belas do que
outras, mas todas recebem o mesmo tratamento, a mesma terra adubada, a mesma
chuva do céu e o gesto atento dos jardineiros da Gulbenkian. Quanta semelhança
com a Educação! Archibald McLeish, poeta americano defensor da Paz,
escreveu um dia: “Uma vez que as guerras nascem no espírito dos homens, é no
espírito dos homens que se devem erguer as defesas da paz”. Acredito, também eu, que é pela Educação do espírito e só
por ela que poderemos mudar o mundo... É tempo de cuidar do espírito dos nossos filhos! Só assim
poderemos efectivamente, mudar comportamentos, ensinar a escolher riscos com
Critério e Responsabilidade...Mas que sabe o Estado do que é cuidar do espírito?
O Estado – qualquer que ele seja! – não pode, nem deve
substituir-nos! Nós, as Famílias, não podemos demitir-nos! É a Felicidade, ou
talvez mesmo a sobrevivência dos nossos filhos que está em jogo!