Tinha tantas coisas para
vos falar, hoje! Paciência, terei de encurtar os assuntos...
Falemos então da belíssima ilha da Madeira, onde
fui em viagem relâmpago, em nome da ACMedia, com representantes do
Instituto do Consumidor e Fenacoop, participar num interessante
Seminário, a propósito do Dia Mundial dos Direitos do Consumidor,
organizado pelo Departamento de Defesa do Consumidor, da Secretaria dos
Recursos Humanos do Governo Regional da Madeira. Deixem-me que vos diga
que não podíamos ter sido melhor acolhidas pelos madeirenses, nem melhor
recebidas pelas várias entidades, em especial pela eficiente e jovem
Directora, Dra Fernanda Botelho.
Gosto sempre de ouvir
as várias intervenções das técnicas peritas em defesa do Ambiente,
Segurança, Qualidade, Brinquedo Seguro, Cooperativismo, Comércio Justo e
Educação do Consumidor, porque para além de aprender imenso sobre temas
em que é grande a minha ignorância, acabo por verificar que muito do que
ali se diz se pode igualmente aplicar às temáticas das Associações onde
trabalho- Cenofa, Acmedia, APFN.
Ora reparem ! Quando as
minhas colegas de Seminário ali afirmaram, e muito bem, perante um
público numeroso e interessado, que a “educação do consumidor é uma
filosofia de vida transversal, que em vez de sermos consumidores ( por
impulso) devemos ser consumeristas, i.é, consumidores
informados, activos, atentos e responsáveis”, e que frequentemente, “ as
pessoas compram o que não precisam, com o dinheiro que não têm, para
impressionarem pessoas que não conhecem” referindo-se assim à
“questão do supérfluo e à transferência que fazemos dos nossos sonhos
e frustrações para os objectos”, ou ainda que “todos os nossos actos de
consumo têm consequências graves para o futuro da Humanidade” e que
portanto “ é necessário tomar consciência e alertar para os consumos
individuais que cada um de nós faz, que não temos só direitos, mas
também deveres, e que é preciso usar de contenção para reduzir o lixo
imenso que aí vem e cujos resíduos e rastos põem em perigo a própria
espécie humana” – pergunto apenas:
- não é verdade que tudo
isto tem a ver com Valores e Educação, problemas e sobrevivência das
famílias no seu quotidiano, ou mesmo com as medidas que as famílias e
educadores precisam urgentemente de tomar, face ao outro “lixo
tóxico”, tantas vezes mascarado de produto de qualidade, que TV,
jornais, revistas e Internet nos “oferecem”?
Enfim, este não é
certamente o momento, nem o local ideal para elencar todos os conselhos
a dar aos Pais e educadores ( poderão visitar o site
www.acmedia.pt) sobre o uso reflectido e crítico dos Media, mas já
agora aproveito para vos citar um genuino Madeirense dos nossos dias,
grande Homem de Letras, Filosofia e Teologia, sacerdote e poeta,
Tolentino de Mendonça, a quem muito admiro, e que numa sua obra recente
evoca Epicuro e a sua distinção entre Bárbaro e Civilizado...
“Bárbaro é o que come ( só), civilizado é o que come com, está à mesa
com ...”, naturalmente com outras pessoas, convive, troca ideias,
impressões, gestos, olhares, sorrisos, afectos.
Poderíamos pois,
perguntar, já agora - como fizemos na Madeira- e a título de simples
chamada de atenção, se realmente nas nossas casas é isso que costuma
acontecer, ou se pelo contrário, a nossa é uma das muitas casas onde já
não se conversa com a família, nem se come à mesa, uns com os outros,
rendidos que estamos aos encantos ditatoriais e subjugantes de sua
Excelência, a Televisão? !
Mas a ida à Madeira, se
bem que curta, também serviu para estar com pessoas interessadas noutra
Associação, o Cenofa, nos seus cursos de formação parental e conjugal e
nos seus Gabinetes de Orientação Familiar. Deste modo, foi possível
contactar diferentes pessoas pedir-lhes ajuda na divulgação das
actividades da Associação e conhecer até os protagonistas de uma
história real, digna de ser divulgada!
Passo a contar: há
cerca de dois anos, um jovem casal teve de sair do país distante onde
vivia, por motivo de uma violenta catástrofe natural que lhes levou
todos os seus bens materiais. Sem recursos, angustiados e com uma
criança que sofre de uma doença grave embora sob controle, resolveram
ir para a Madeira, onde residiam os pais dele, que generosamente os
receberam em sua casa, apesar de não serem ricos. Entretanto, o pai
arranja emprego e no ano passado, a jovem engravida. Os médicos
aconselham-na a abortar porque a criança poderia ter a mesma doença da
irmã. O casal recusa, mas depois de tanta insistência, a mãe aceita
fazer a análise ao líquido amniótico, a amniocentese. Por fim, quando
chega o resultado, chamam-na de urgência, para lhe dizerem que deve
abortar porque a criança será mongolóide ( Síndroma de Down) de certeza.
De novo, a mãe, estrangeira, se recusa, afirmando ser contra a sua
consciência tirar a vida a um novo ser. O marido apoia-a. Finalmente, a
criança nasceu ! Tem agora três meses. Estive com ela, é linda e
perfeitamente saudável.
Não tem qualquer
doença! Os pais, os avós e a irmãzinha de cinco anos, estão radiantes
com a Maria, claro!
Já no avião, de regresso
a Lisboa, enquanto a minha jovem colega de Seminário e companheira de
viagem, me fala animadamente do seu querido bebé, Martim, dei comigo a
cismar em quantos outros terríveis “erros” são cometidos diariamente em
nome dessa mesma fé cega e inabalável na intocável fiabilidade das
técnicas de diagnóstico pré-natal ...
Entretanto, peguei num
livro que comprara antes de partir e com ele me entretive durante o
resto da viagem. A meio da leitura de “Educar para o amor” de Giovanni
Nervo, deparo com uma passagem que não resisto a transcrever, não só
porque me impressionou vivamente, mas também porque me trouxe à
lembrança o terrorismo e os dolorosos acontecimentos do 11 de Março
2004, em Madrid , cujo primeiro aniversário acaba de ocorrer.
Trata-se de um excerto
de uma carta publicada em “Il Corriere della Sera”, de 6 Julho 1986,
escrita por Savasta, um terrorista, activista das Brigadas Vermelhas, e
dirigida à viúva do Engº Taliercio, no quinto aniversário do seu
assassinato, para lhe pedir perdão.
Não precisa de
comentários! Deixo-vos com ela:
“Naqueles dias , o
seu marido esteve como a senhora o descrevia: calmo, cheio de fé,
incapaz de odiar-nos e com uma dignidade altíssima.
Era ele que tentava
explicar-nos qual era o sentido da vida, e eu, em particular, não
compreendia donde lhe vinha tanta força para sentir-se assim tão sereno,
quase alheado das coisas terrestres.
Eu sei, senhora,
que nada disto lhe restituirá muito, mas saiba que dentro de mim há uma
palavra que o seu marido trazia consigo e que venceu. Venceu contra mim,
que agora consigo compreender alguma coisa e venceu contra todos aqueles
que ainda hoje não compreendem.
Mesmo naqueles
momentos, o seu marido deu amor e foi uma semente tão poderosa que nem
sequer eu, que lutava contra isso, consegui extinguir dentro de mim. É
uma flor que também eu quero cultivar para poder ser eu a dá-la. Se não
fosseis vós os primeiros a darem essa flor, eu ainda estaria perdido
no deserto. Creia que estou em dívida para convosco e espero só poder
encher este vazio, restituindo e ensinando a outros o que vós me destes
e ensinastes.”
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