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Nos primeiros dias de Julho, ouço na rádio, TSF, ao fim da
tarde, em dias diferentes, notícias da seca e incêndios que
atormentam Portugal e programas que me provam, o que estou
sempre a dizer aos meus filhos: “...é que a vida não é uma
gargalhada permanente!”
“…morre uma
criança em África, cada três segundos…”
“We’ve
never been wealthier, we’ve never been healthier, we know what
to do, we know what it costs, so Do IT!” (música de Bob
Geldof )
Catarina Serra
Lopes, 28 anos, Universidade Nova. Dois meses em Moçambique
serviram-lhe de estímulo e certeza de que era possível fazer
qualquer coisa pelas crianças que ali morrem de fome ou vivem em
extrema pobreza. Por isso criou o projecto “ Padrinhos de
Portugal”, que apesar de muitas dificuldades, vai singrando.
Missionárias, missionários e leigos, vão administrando como
podem os 25 euros / mês que os padrinhos das crianças enviam de
Portugal.
Uma jovem,
Mécia Gertrudes, diz :”O qui gosto mais é di
receber cartas dos meus padrinho qui mi
tratam como filha!”
Ouve-se um
garotinho cantarolando “eu sou minino lindo di
Moçambique, quero aprender, estudar as lições…”
Uma voz
africana, a cozinheira da missão, explica: “tem vezes
os minino não consegui estudar porque tem
muita fomi…”
Sentada no
carro, com o ar condicionado a refrescar-me, não consigo deixar
de me sentir envergonhada, eu que ali vou, recostada e
confortável, a caminho de mais uma recepção numa Embaixada. Olho
para a minha roupa e envergonho-me das vezes que me sinto
tentada a comprar outra, só por achar que já todos a viram vezes
de mais…Lá fora, pela janela, passam céleres e alheias àquela
realidade que a rádio me traz, muitas mulheres de todas as
idades, todas diferentes mas demasiado parecidas, como escravas
submissas e acríticas em busca de pretensa felicidade, exibindo
a moda provocante do curto, ou comprido, mas sempre descaído,
justo, reduzido e transparente…
Penso nas
minhas filhas. O programa de rádio continua. Sinto-me triste e
envergonhada.
Alguns dias
mais tarde, vivia uma experiência única que não esquecerei!
Às primeiras
notícias, ainda vagas e imprecisas, do terrível atentado
terrorista em Londres, entrava eu numa corveta da Marinha
Portuguesa no Tejo, juntamente com outros convidados, para
tomarmos parte numa insólita cerimónia: o lançamento ao mar das
cinzas de um famoso poeta mexicano, Francisco Cervantes Vidal (
1938-2005), falecido no México em Janeiro último, grande amigo
de Portugal, apaixonado em especial, por Lisboa e pela poesia de
Fernando Pessoa, e principal divulgador da língua e cultura
portuguesas na América do Sul. A sua última vontade foi que as
suas cinzas fossem lançadas na foz do Tejo, e por isso três dos
seus familiares mais próximos se deslocaram expressamente a
Portugal para tal, com apoio da Embaixada do México.
Ouviu-se uma
breve oração, seguiram-se igualmente algumas curtas palavras de
poetas, de gente das nossas letras, de amigos portugueses e do
irmão mais velho, e finalmente, parados no Tejo, sob um sol
escaldante apesar da brisa amena, ouvindo-se apenas o suave
bater da ondulação no casco – estranhamente ignorantes da
tragédia que se abatia sobre Londres – ali estávamos nós numa
simples e estranha cerimónia de luto, despedida e paz.
Depois, já de
regresso, um pouco afastadas do resto do grupo que conversava
entre si, encostadas nós ambas à amurada, quebrando o silêncio
que curiosamente nos unia, de repente, a poetisa Isabel
Barcelos, professora e escritora portuguesa apaixonada pela
poesia sul-americana, desviou o olhar do belo casario branco da
nossa cidade, e disse-me com um sorriso inspirado e doce: -
“Sabe? Há uma harmonia tão grande e profunda no Cosmos, como que
um mistério que sempre nos está a ser revelado, só que não damos
conta …não vemos, não ouvimos, …sempre tão distraídos…”
“É por isso que
fazem falta os poetas!...” – alguém disse, mas sinceramente, já
não sei se foi ela, ou se fui eu, ou se ambas o pensámos e o
vento o disse...
Lembrei-me
então, das palavras que ela escrevera expressamente para esta
ocasião no folheto que nos foi distribuído à entrada: “ (…) a
poesia é a sombra plasmada do poeta, a sombra que se torna
matéria - é a sua carne viva. (…) A poesia fixa um ponto no
caos. Um ponto em que nos ancoramos, sempre num equilíbrio
precário, sempre a perder o pé, porque o poeta não pode
defender-se de nada; é um órfão na terra, um quase apátrida. Mas
a língua é a pátria do poeta e Francisco Cervantes teve
duas pátrias: a língua castelhana e a língua portuguesa (…).”
Ali ficámos a
falar de como a Isabel o conhecera em Portugal, em 1999, quando
o poeta aqui viera proferir uma última conferência e receber a
Ordem do Infante D. Henrique, pelo seu trabalho na promoção e
difusão da nossa língua e cultura. Falámos ainda de Lisboa e de
outras paisagens: da sua ilha da Madeira, dos meus amores pelos
Açores! – (das Furnas e da Lagoa do Fogo, onde a Mão de Deus se
me revela mais e mais, na paisagem, nas rochas, no silêncio, nas
aves, na vegetação luxuriante, de cada vez que tenho a dita de
ir a S. Miguel!!!) …até que atracámos, saltámos para o cais e
tomámos enfim conhecimento da verdadeira dimensão dos vários
ataques terroristas que espalharam morte, sangue e dor na cidade
de Londres! Estranha sensação a de ter estado numa pacífica e
inédita cerimónia de despedida aos restos de alguém que morreu
de morte natural e anunciada, enquanto exactamente ao mesmo
tempo, uma outra morte se abatia inesperada e violentamente
sobre milhares de inocentes!
Passaram já
vários dias e todos têm muito justamente comentado a exemplar
contenção com que o Governo e os Media ingleses têm tratado toda
esta tragédia. Contudo, por muito que nos abalem as notícias,
todos sabemos que são as vítimas directas quem realmente fica
irremediavelmente marcado para sempre, dificilmente podendo os
sobreviventes e seus familiares voltar algum dia, à sua vida
normal! Há no entanto, um clima de respeito e solidariedade que,
no mínimo, nos deve impedir de ficarmos indiferentes ao que ali
se passou e nos deve manter atentos às notícias que nos vão
chegando.
Por isso, foi
com profundo desagrado e pena que vi hoje, numa revista
associada a um conhecido jornal Semanário, textos e imagens
pretensamente humorísticos a propósito deste atentado, que
infelizmente, como todos sabemos, a qualquer momento se repetirá
por certo, só que não sabemos onde, nem quando…Como é possível
fazer humor e desrespeitar a dor real, palpável e próxima de
tanta gente inocente? Como é que, em nome da liberdade de
expressão e da criatividade, alguém se pode permitir brincar com
a tragédia alheia??? |