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De pé, junto
ao fogão, vou mexendo com uma colher de pau, lentamente, o doce
de ameixa e pêssego que pus ao lume. E vou pensando: estas
ameixas e estes pêssegos, tão bonitos por fora, mas que nunca
amadurecem…são mesmo péssimos! Será que em doce se tornarão mais
comestíveis?
E quase sem querer,
ponho-me a pensar em tantos jovens, rapazes e raparigas, também
eles bonitos por fora, mas completamente imaturos por dentro,
que diariamente tostavam ao sol, entre telemóveis e cremes, com
um ar inútil e enfastiado, nas praias por onde passei. As suas
preocupações pareciam sempre as mesmas, a partir da hora tardia
em que se levantavam para fazerem praia : o culto do corpo, as
roupas, as boleias, as saídas à noite, os namoros…Não, a culpa
não é deles, é dos pais, é nossa…e quero falar deste tema no “
meu metro quadrado” de hoje…
Mas - assalta-me a
suspeita! -será que alguém terá dado pela minha ausência?
Longe de Lisboa, sem
computador, sem silêncio, com filhos e amigos dos filhos sempre
a chegarem e a partirem, casa cheia, a dispersão mais que muita,
o tempo a fugir … não, não vale a pena dizer mais, já
perceberam!
Aconteceu! Sofri de facto,
uma espécie de verdadeiro ataque de esclerose !
Mas depois deste jejum
estou de volta à escrita, um tanto enferrujada, é certo, mas com
saudades.
Porém, como já calcularão,
não irei comentar o que todos já comentaram, i.é. a nossa
incapacidade para deter a desgraça nacional de mais um Verão de
fogos devastadores em tempo de seca imemorável, os mais recentes
e mortíferos atentados no Iraque, ou a catástrofe lançada a esmo
pelo furacão Katrina em vários estados americanos, deixando o
mundo estupefacto e incrédulo ante o caos impensável num dos
países mais ricos, organizados e eficientes do mundo !
Tão pouco irei alongar-me
sobre a morte injusta, inesperada e violenta do venerando Irmão
Roger do Movimento de Taizé, que ainda em Dezembro passado
passou por Lisboa, e foi um verdadeiro ícone do ecumenismo, da
paz e fraternidade, arrastando multidões de jovens de todo o
mundo.
Não poderei sequer falar
do encontro do Papa Bento XVI com milhares de jovens, nas
recentes Jornadas Mundiais da Juventude em Colónia, onde se
encontravam 5.000 portugueses, porque pouco pude acompanhar pela
televisão e só agora estou a ler as mensagens do Papa…
Mas ouvi na rádio, há
poucos dias, o comentador Carlos Magno afirmar que “ não podemos
deixar desvanecer na espuma dos dias e na voragem de
frivolidades dos Media” a recordação de pessoas que nos vão
deixando - citando, a propósito da morte do célebre arquitecto
Távora a quem todos louvavam, uma outra figura portuense
desaparecida e de muitos desconhecida, a de um simples
“gravateiro” português, de seu nome Pinho Vieira, se não estou
em erro. Conhecido pela qualidade do seu trabalho, das suas mãos
habilidosas saíram gravatas únicas para reis, presidentes da
República e grandes personalidades de relevo internacional.
E também eu senti então,
que teria de vos falar hoje do Daniel.
Daniel da Luz Serra Vaz,
marido de uma minha amiga, morreu de cancro recentemente. Era
uma personalidade muito curiosa, invulgar mesmo, um homem muito
culto, excelente contador de histórias, sociável e brincalhão,
com um não sei quê de eterno menino, cuja simpatia e paixão
pelos chapéus o tornaram conhecido como incansável coleccionador
por esse mundo fora por onde tanto viajou, o que provavelmente o
incluirá no Guinness.
Ainda me lembro da
primeira vez que o conheci: há muitos anos atrás, a entrar num
conhecido colégio do Restelo, onde a sua mulher dava aulas, em
dia de festa de Natal, transportando uma ovelha verdadeira, que
fora buscar de propósito ao Alentejo, para dar um cunho mais
realista e original à festa que alunas e professoras preparavam
para os pais, dirigidas pela inesquecível professora de francês!
O bom do Daniel não só trazia a ovelha ao colo, como tinha
ainda o carro cheio de recheio da sua própria casa, mais um ramo
imenso de folhas de palmeira que durante a noite andara a
apanhar pelas ruas, com a sua mulher, escolhendo-as entre as
folhas que os jardineiros da zona deitavam fora… Só mesmo o
Daniel!
A última vez que com ele
estive foi exactamente há cerca de três anos, no Estoril, numa
sua exposição, de que guardo deliciosas recordações, entre elas
umas fotos que me tirou, ao fim de muita insistência sua,
mascarada com uns estranhos chapéus na cabeça, provenientes das
mais distantes paragens.
A sua colecção acaba de
ser entregue, como ele tanto desejava, ao Museu de S. João da
Madeira e vale certamente a pena ir até lá, conhecê-la!
Ao vê-lo, no dia da sua
morte, deitado na urna, com um lindíssimo chapéu pousado a seus
pés, todo forrado de pequeninas flores brancas e roxas, pensei
que de facto aquela era a homenagem certa. Admirando-o e
dedicando-lhe grande amizade, uma sua cunhada, escultora, teve a
original ideia de primorosamente enfeitar e lhe oferecer aquele
chapéu cheio de flores, como forma de o cumprimentar e “lhe
tirar o chapéu” em sinal de respeito, pela última vez.
Carlos Magno tem razão!
Há de facto pessoas
simples, como o Daniel, que passam despercebidas, quase iguais a
nós na sua normalidade de vida, mas que conhecidas mais de
perto, não podemos esquecer, porque deixam um rasto diferente,
seja de beleza, criatividade, saber, ou bondade. Essas pessoas
fazem a diferença num mundo como o nosso em que muitas vezes,
acabamos por vegetar, nós adultos, já quase indiferentes às
notícias das desgraças, ou mergulhados em jogos políticos de
escárnio e maldizer, enquanto ao nosso lado muitos jovens
frequentemente crescem só por fora, incapazes de enfrentar o
desafio real das dificuldades, do esforço e do trabalho, moles e
acomodados entre os mimos e caprichos que erradamente os
treinámos a exigir!
Por isso, e para terminar,
também é sempre de louvar quando se encontram pais lúcidos e
corajosos, como uns que conheço, e que este Verão, ao ouvirem os
planos de um filho jovem de levar uns quantos amigos para sua
casa de praia, como de costume, para fazerem a conhecida vida de
noitadas e copos, lhe disseram pura e simplesmente: Não!
Este ano, de facto, diziam
eles, não só não estavam para se levantar de manhã a horas
normais, para irem fazer desporto e praia, e terem de andar a
passar por cima dos vários amigos do filho, deitados nos sofás e
no chão da sala, a tresandarem a cerveja, como não o levariam
para o Algarve e o iriam pôr a trabalhar como porteiro de uma
instituição durante um mês!
Ao filho custou e aos pais
também, mas agora o filho é o primeiro a agradecer e a
reconhecer que até foi uma experiência bem positiva!!!
Abençoados pais! |