Ultimamente tenho
recebido uma série de “mails” com pedidos de ajuda muito imaginativos,
vindos de África, na sua maioria da Nigéria e Costa do Marfim.
Assinados por diferentes personagens- de solicitadores, a viúvas e
filhos de ex-governantes - relatam sempre histórias rocambolescas e
extraordinárias, de fortunas escondidas pelos defuntos ou depositadas em
seguradoras e bancos europeus, e pedem – me que os ajude a recuperar o
dinheiro, a que têm direito, prometendo-me generosa recompensa. Basta
que lhes responda ! Imagino o vosso sorriso, pois certamente não serei a
única a receber estas missivas...
Não tenho qualquer
dúvida de que estamos perante cérebros extremamente criativos, mas é
mais um estratagema evidente para enganar incautos.
Contudo, bem sabemos
que a África continua a ser varrida pela guerra, pela fome, pela doença,
e ignorância, de que só o terrorismo internacional, a globalização e o
egoísmo consumista da nossa civilização ocidental nos podem fazer
distrair.
Recentemente, as poucas
páginas de alguns dos nossos jornais que sobram à revelação de
escândalos, desmandos na governação , desastres e notícias
erótico-pornográficas, começam a referir insistentemente a tragédia do
Sudão, o maior país africano, imerso numa guerra civil há mais de meio
século. Agora fala-se em cerca de milhão e meio de pessoas desalojadas
e em fuga, marcadas por mortes, mutilações e violações, e tentando
sobreviver em acampamentos sem condições. As atrocidades cometidas
contra crianças, mulheres e homens , na região de Darfur, são de uma
barbárie quase inacreditável. A crueldade humana ultrapassa os limites
do imaginável neste novo século e os relatos, só por si, têm que dar a
volta aos estômagos mais sensíveis.
Os últimos dados da
ONU referem que nos últimos meses mais de 50 mil pessoas têm vindo a ser
massacradas, sendo a maioria dos crimes atribuídos a milícias árabes
financiadas pelos próprios governantes de Cartum, com intuitos de
aniquilação de grupos étnicos específicos.
Louise Arbour,
comissária da ONU para os Direitos Humanos, decidiu entratanto, ir ver
com os seus próprios olhos , o que se está a passar no terreno e
encontrar formas “para fazer parar” esta enorme tragédia!
A nós porém, neste
nosso cantinho à beira-mar plantado, imersos que estamos numa certa
mesquinhez de espírito que quase nos faz olhar só para o nosso umbigo,
para os nossos problemas pessoais e nacionais- há aumentos, ou não há
aumentos? pagamos mais, ou pagamos menos ? ganha um partido, ou ganha o
outro ? temos escola ou não temos escola? demitimos este ou demitimos
aquele? ... - quase todas estas notícias nos passam ao lado.
E contudo faz-nos muito
“bem” descobrir gente, aparentemente igual a nós, que em vez de andar a
tentar localizar no mapa os países ( africanos, ou não) de que se fala,
resolve deixar de “procurar os pobres no mapa, para os procurar nos seus
próprios países”.
Foi o que aconteceu
com várias pessoas que conheço e de diferentes idades. Anónimas, sem
busca de protagonismo, vão para diferentes pontos do globo, onde quer
que haja sofrimento e necessidade. A Pipa, por ex., jovem leiga e
médica, foi dar um tempo da sua vida para os Camarões, onde opera, sem
anestesia e sem meios...A Ana, das Escravas, foi trabalhar com crianças
e famílias em Timor. Um grupo de jovens do MSV ( Movimento de Serviço à
Vida) foi para as favelas do Brasil, durante dois ou três meses, como já
vêm fazendo há alguns anos, em vez de gastarem o seu tempo de férias
preguiçando nas nossas praias e na vida nocturna. Um grupo de estudantes
católicos de Lisboa, Porto e Coimbra, foi trabalhar gratuitamente, na
Croácia, em Agosto.
Os jovens do ISU (
Instituto de Solidariedade Universitária) não param de trabalhar nos
seus projectos de formação e educação em vários países africanos de
expressão portuguesa.
Christine du Coudray,
jovem francesa, que há dez anos descobriu a Fundação “Ajuda à Igreja
que sofre”, deixou o seu bem-estar pessoal para trás e é hoje
responsável pela Secção Africana.
Acabo de receber pela
primeira vez o mais recente boletim desta organização , todo ele
dedicado ao Sudão, e leio testemunhos impressionantes obtidos nas
cidades de Cartum e Wau . Mas não só aí a Fundação trabalha pela Fé,
pela Paz e pela ajuda no abastecimento de água, na construção de
escolas, casas, maternidades, missões e respectivos equipamentos.
África precisa de
facto, urgentemente, da nossa ajuda e uma prioridade essencial, nas
palavras dos responsáveis por esta Fundação, é precisamente a pastoral
da família. Lá como cá! Prioridade às famílias! Ajudemos quem trabalha
generosamente e pode canalizar os nossos donativos de forma criteriosa e
honesta! (www.fundacao-ais.pt).
Temos de sair da nossa
concha, gastando-nos, cá como lá, por causas nobres !
Ainda há pouco conheci
a “ Casa de Betânia”, uma obra notável aqui na zona de Carnaxide /
Linda-a- Velha, que no meio de imensas dificuldades, liderada pela
corajosa irmã Maria João, luta pelo apoio a todo um grupo de deficientes
intelectuais, dando-lhes casa, alimentação, trabalho, dignidade e um
ambiente de família, quando atingem os 18 anos , ficam sós e deixam de
ter apoios. E pedem- nos ajuda.
E gastamos nós tanto
tempo e dinheiro inutilmente...Não é verdade? Não concordam?
É certo que não podemos
chegar a tudo, nem a todos, nem vamos todos agora partir para qualquer
lado, deixar família e profissão num fugaz lampejo de missionação, mas
mesmo aqui no nosso país ou a partir de cá, há trabalho para todos e
uma infinidade de formas de sermos úteis, com e sem dinheiro.
Só não há tempo é para
ficarmos confortavelmente sentados na vida, sempre a criticar os outros
e a pensar: - Está tudo mal neste país ! E a África fica lá muito longe
! Eles que resolvam os seus problemas! Acabou-se ! Eu cá já fiz o que
tinha a fazer na vida. Agora mereço papas e descanso. Vou-me reformar e
cuidar de mim...
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