Em tempos conheci um
pintor amador - muito dotado, aliás! - que para não esquecer as cores e
imagens que mais o inspiravam, andava sempre de bloco-notas e caixa de
lápis –de - cor no bolso, para assim poder anotar o que mais tarde
queria passar à tela.
Também eu vou
registando, aqui e ali, pequenas ideias ou histórias reais, que mais
tarde me servirão de tema. O problema é que, como anoto em papéis soltos
e diferentes agendas, acabo por me esquecer delas e quando as redescubro,
muitas vezes já perderam a actualidade…
Vem isto a propósito de
um programa de televisão, uma reportagem, passado na SIC, num telejornal
de sábado, em Setembro, e que agora fui reencontrar. Desta vez porém,
não creio que estranhem a sua evocação já que estamos em Novembro, o
tradicional mês de “finados”, em que recordamos mais vivamente, se
possível, a morte dos nossos entes queridos e de tantos outros!
O programa a que me
refiro, tratava exactamente de diferentes modos de “desatar o nó do
luto”, o mesmo é dizer, diferentes formas de viver e fazer o luto,
gerindo afectos, memórias e penas, peso e dor.
O programa, em horário
nobre de sábado, incluía entrevistas a um psiquiatra e a diferentes
pessoas que, tendo perdido, de forma mais ou menos violenta e/ou
inesperada, entes queridos e próximos, estão agora à frente de
Associações que eles próprios fundaram, como a “Apelo”, “A nossa
Âncora” e “Associação Viver Criança- Ruben Cunha”, precisamente com o
objectivo de ajudar outras pessoas em profunda aflição, por luto ou
doença.
Dizia o psiquiatra que
“ há um tempo para tudo” e por isso aconselhava a nunca se apressar o
sofredor a desfazer o quarto ou a casa, ou esvaziar a arca, o
guarda-fato e as gavetas da pessoa que partiu. “É preciso dar tempo”
para que as feridas vão cicatrizando, sendo uma ajuda fundamental à
sobrevivência de quem sofre “ manter a família unida”.
Ali foram relatados com
emoção “ pesados” exemplos de dor, no entanto apelidados de “casos de
luto bem sucedido”, isto é, casos de pessoas que não esquecendo jamais
os seus mortos queridos, acabam por conseguir, através dessa mesma dor e
pelo amor, transformar-se em pessoas melhores, mais generosas e
prestáveis, mais próximas da dor dos outros, e até, frequentemente, mais
criativas e artistas, descobrindo novos talentos e recursos dentro de
si.
Neste programa,
curiosamente, uma das pessoas entrevistadas era alguém que muito admiro
e que, justamente, conheci mais de perto, por ser Mãe de uma jovem aluna
minha, que fugazmente passou pela “minha” escola, mas a quem nunca
poderei esquecer!
A Joana, assim se
chamava, adoeceu aos 13 anos com leucemia e morreu aos 15, depois de um
longo e intenso calvário. Sempre sorridente, corajosa e conformada - com
aquele mesmo sorriso doce e gaiato da Mãe! , Joana viveu a sua doença
com uma naturalidade espantosa, apenas pedindo “ por favor, nunca se
esqueçam de mim!”Como a Mãe dizia, “a Joana partiu, mas o seu sorriso
ficou para sempre, a encher a casa” …
Quando lhe perguntaram
como se supera tamanha Dor, a Mãe respondeu com igual sorriso e
simplicidade: “- O que a mim mais me ajudou foi a Fé! Agarrem-se a Deus
e dêem-se, dêem-se aos outros, o mais possível!”
Tenho
outros Amigos que igualmente passaram por esta Dor inenarrável da
perda de um filho, ou de outro ente muito querido, e sei e vi com os
meus próprios olhos, que a “receita” difícil tem sido sempre a mesma: Fé
e entrega generosa ao serviço dos outros. Sair de si
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