Tudo se passou num
ápice, pelo menos assim me pareceu, mas vou contar-vos:
Era aquela hora “H”, tão
especial em cada manhã...meu Marido e meus filhos já tinham saído de
casa, o silêncio e a calma pareciam ter voltado. Sentei-me, a tentar
separar mentalmente, o urgente do importante. Meu Deus, tanta coisa para
fazer! Por onde começar?
Nisto apercebo-me que
meu Marido deixara a televisão ligada. Farta de tanta má notícia logo
pela manhã, mecanicamente resolvo fazer um “zapping” rápido, em vez de
desligar. Uma voz familiar segreda-me cá dentro : “ Desliga!”. Faço os
meus conhecidos ouvidos de mercador e digo com os meus botões : “ Também
é só um bocadinho e já agora vou espreitar o programa da Oprah (no canal
SIC Mulher)!” “Desliga!”, “Não desligo nada, é só um bocadinho!"
E então, de repente,
entra-me pela casa adentro e atravessa-me o coração de uma ponta à
outra, uma das cenas mais bonitas e comoventes que tenho visto em
televisão, nos últimos tempos! Vou contar-vos...
Duas produtoras conversam com a famosa
apresentadora negra, a americana Oprah, acerca dos mais belos
episódios e dos mais marcantes realizados até então. Uma delas refere a
vinda ao programa, de uma jovem- cuja foto nos é mostrada- em tempos uma
carinha bonita, alegre e fresca, mas agora, completamente desfigurada,
apesar de um sem número de operações já sofridas. Numa trágica noite, ao
regressar a casa de carro, a jovem foi abalroada por um condutor
embriagado e de imediato o carro se incendiou com a jovem presa lá
dentro. Contra todas as expectativas, sobreviveu. Agora, como diziam as
produtoras, evocando a cena que voltaram a mostrar,“ é um espírito
lindo”, porém num corpo tão desfigurado que a cara mais parecia um
animalzinho e a cabeça vinha escondida num chapelinho preto.
Quando a mãe do jovem
condutor embriagado( agora na prisão) é chamada ao palco, ambas se
abraçam e a senhora, de voz embargada, nada mais consegue dizer senão “
eu julgava ser capaz de falar, mas não sou...”Então a jovem, volta a
abraçá-la, segunda vez, segurando-lhe as mãos bonitas e cuidadas nas
suas mãos deformadas e ouvimo-la dizer apenas, com grande serenidade,
numa voz jovem e carinhosa “ está tudo bem, está tudo bem...” No final
da breve cena revista, Oprah , igualmente comovida, comenta que aquela
foi a mais bela expressão de perdão que ela já alguma vez ouvira ou
conhecera!
“Perdi”(?) 30 minutos
com a minha tentação.. e nem dei conta , é verdade, mas desta vez não me
senti irritada comigo própria como daquelas outras vezes em que a
televisão me seduz e amarra ao sofá, estupidamente, nas franjas do dia-
pela manhã ou ao fim do dia- a perder um tempo precioso...
A verdade é que, falar
de perdão vem mesmo a propósito, num momento em que a morte e sucessão
de Arafat, “leader” da OLP – para uns aquele herói, para outros um
assassino- cria uma oportunidade talvez única de abrir caminho à Paz
entre Israel e a Palestina, a Paz por que tantos anseiam e que
simultaneamente ódios ancestrais de ambas as partes parecem querer
sempre inviabilizar.
Falar de perdão, aliás,
vem também a propósito, aqui bem mais perto, precisamente quando no
passado fim-de-semana, o Instituto de Ciências da Família, da
Universidade Católica de Lisboa, organizou um excelente curso livre, com
bastante assistência, intitulado “Mediação para a Reconciliação” e
superiormente orientado por Tony Whatling, uma espécie de “guru” da
Mediação, profissional, consultor e formador de Mediação Familiar,
Membro Fundador da Associação de Mediadores Familiares do Reino Unido.
Tony Whatling tem
corrido mundo a convencer casais desavindos e muitos litigantes de que a
Paz é possível e que a violência- ao contrário do que a maioria dos
programas de televisão nos ensina e aos nossos filhos!- não é a única,
nem a melhor solução para os conflitos entre casais, familiares,
vizinhos, colegas, patrões e empregados. Dizia Tony Whatling, alias,
depois de ensinar as várias técnicas de fazer Mediação, que a capacidade
de perdoar varia muito de pessoa para pessoa, dependendo sobretudo da
sua personalidade, mas também da educação recebida, das suas convicções
e crenças religiosas e da cultura envolvente. E contava vários exemplos
elucidativos de capacidade e incapacidade de perdoar. Entre eles contou
o caso de um polícia assassinado à facada, há pouco tempo em Inglaterra,
durante uma operação de assalto a uma casa onde se pensava estarem a ser
fabricadas armas químicas. No dia do enterro do polícia, seu pai, no
meio de grande desgosto, foi capaz de dizer que rezava para pedir a Deus
que perdoasse ao assassino aquele acto de extrema violência e ao mesmo
tempo também pedia a Deus que lhe ensinasse a ele próprio a perdoar ao
assassino do seu filho!
O perdão é de facto, a
única chave e segredo da resolução de muitos conflitos e problemas, às
vezes naturais e inevitáveis, outras vezes não, no nosso dia-a-dia, na
família, no trabalho e na sociedade em geral.
E que falta nos faz uma
cultura de Paz em oposição à imensa violência que nos rodeia!
Importa praticá-la nas
nossas casas e treiná-la com as nossas crianças...
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sugestões : fonsecas@netcabo.pt