15 Novembro 2003- O meu m2

As rajadas de vento dobram chapéus de chuva e levam tudo pelo ar. À esquina da Duque de Ávila, cruzam-se os cheiros de que tanto gosto : café acabadinho de moer numa loja antiga, e  castanhas a assar , no carro do vendedor ambulante. Paro para respirar fundo os cheiros de Outono e sou apanhada  por uma chuvada inesperada , enquanto um outro banho de preocupações se abate sobre a minha cabeça molhada: ...terás algum estudo sobre  programação infantil de televisão   para uma reunião de pais lá na escola  ?... tenho de encontrar alguma coisa... mas onde é que eu pus aquele interessante estudo de uma jovem da Universidade do Minho? E quando é que  na nossa  ACMedia  conseguiremos  voluntários para acompanharem de perto os desenhos animados? Estamos sempre à espera dessa pequena ajuda...era só ver com uma intenção  mais pedagógica...qual é a dificuldade? Será que não se arranjam uns pais, avós ou tios que vejam desenhos animados com os seus  pequeninos? ...  o  cheiro das castanhas lembra-me o “magusto” que vou ter numa quinta em Alcobaça, onde terei de falar a um grupo de pais  jovens sobre “As amizades das crianças e dos adolescentes”. Começo a ficar ligeiramente preocupada.

A caminho de casa tão distraída vou, que ao cruzar-me de frente com um dos loucos( de quem tenho algum medo, confesso!) que habita na minha zona e me dirige a palavra, maquinalmente levanto os olhos do chão e respondo-lhe com um sorridente “Bom-dia!” Nas minhas costas, ouço-o dizer-me:- “Obrigado por me ter falado!” Volto a acenar-lhe,  apresso o passo e entro em casa. Para trás, ficam uns pardalitos saltitando e debicando no chão, entre as folhas  belíssimas nos seus tons vermelhos, castanhos e amarelos, juncando o chão por onde passo.

Lanço-me ao trabalho.

 

 Pelo meio muita coisa positiva, vai acontecendo nesse meu fim-de-semana : as aulas fascinantes de Psicologia ( obrigada, professora Teresa !) na pós-graduação em Orientação e Mediação Familiar  da Universidade Católica de Lisboa, mais um encontro nacional de entusiásticos delegados da Associação das Famílias Numerosas ( cuja foto ficou por tirar, para grande pena do Presidente!!!) e por fim a chegada da minha neta Carlota que vem passar a noite connosco para os pais poderem sair.

Avisada da necessidade de trabalhar o tema mais em função de pais novos com filhos pequenos do que com filhos adolescentes, agarro no meu inseparável “As amizades das crianças” de Zick Rubin e preparo-me para reavivar a memória noite fora.

Na manhã seguinte, um tanto angustiada pela chuva intensa e o atraso na escrita do texto, dou  o leite com flocos à minha neta e ligo os desenhos animados, a seu pedido, na esperança de , finalmente, poder passar ao papel o que quero dizer...e então não é que tenho a sorte inesperada de me deparar com um excelente filme na SIC, ideal para apoio ao tema das “amizades” dessa tarde?

É que nem hesitei! Dito e feito: serviu  tão bem para o magusto, que não levem a mal, mas é mesmo desse filme de desenhos animados –“ A menina da Mamã”- que vos vou falar hoje!!!( Estou certa de que seria também um excelente material para as escolas!).

 

 A história é esta: uma menina de 9 anos ( que aqui em Portugal poderia ter entre 10 e 12 pelas suas atitudes) assume-se como uma verdadeira “leader” na sua turma. É uma autêntica Maria-rapaz, joga muito bem à bola e perante os colegas é uma rebelde, sempre contra as professoras. No fundo porém, é uma excelente aluna, sobretudo em Língua Inglesa, e tem uma relação de cumplicidade com a professora, de quem gosta imenso, embora não o mostre. A própria professora só lhe entrega o teste depois de os colegas saírem da sala, fazendo grandes elogios à sensibilidade com que a menina escreve e dando-lhe óptima nota. Enquanto a professora a chama à parte, os colegas julgam que ela está a ser repreendida e que vai receber más notas, mas de facto é o contrário, só que a menina  pede à professora que não diga nada aos colegas e, já de saída, lá diz em tom meio desajeitado “ obrigada, professora! E isto fica só entre nós, sim? Conversa de mulheres...”

Já no recreio, volta ao seu papel arisco de rebelde e leader e todos jogam à bola num recreio cheio de lama. De repente, porém, a professora “adorada”, aparece a passear, distraidíssima, lendo um livro e, quando a menina a vê prestes a pôr o pé numa imensa poça de lama, não se contem e grita-lhe de longe, para a avisar : “Cuidado, Mamã!”

É a troça geral ! A partir daí todos gozam com ela e começam a chamar -lhe “ menina da mamã”! Até os amigos mais próximos! A vida na escola torna-se-lhe insuportável, porque professores, empregados e colegas , todos fazem troça dela. Os amigos perguntam-lhe se ela não está a exagerar, e começam  a ficar preocupados, sobretudo quando ela os chama para lhes dizer que não voltará à escola e que pretende desfazer-se dos seus “tesouros”. A um dá a borracha de estimação, a outro uma pedra, etc. Vai para casa e não quer voltar mais à escola, mas na manhã seguinte a mãe obriga-a a voltar  e lá recomeça o seu processo de exclusão e isolamento.

Os amigos, desejosos de salvarem a fama da amiga, tentam então de vários modos que mais alguém “caia no erro” de chamar “Mamã” a alguma professora ,ou “Papá” a algum professor. Todas as tentativas são infrutíferas, até que um dia, a professora preferida de todos entra na sala e começa a fazer-lhes um sermão sobre a responsabilidade que todos têm pelo mundo em que vivem e a importância de todos contribuírem para o bom ambiente na escola e se preocuparem com os outros. Então, de repente, um dos grandes amigos da menina levanta-se e gaguejando, pede a palavra, acabando por dizer à professora : - “eu...só queria dizer...que... concordo, Mamã!” Os amigos olham-no, assombrados, esboçam um sorriso incrédulo, e de repente, um a um, primeiro os amigos da menina e depois toda a turma, começam a dizer: “Eu também, Mamã!”

Finalmente a reputação da menina está salva, já ninguém acha estranho chamar “Mamã” às professoras, até passam a achar divertido e acaba o drama da aluna rotulada de “menina da Mamã”, que assim volta a ser estimada e apreciada por todos.

Esta história encantadora deu assim aso a grande debate entre os presentes no tal magusto, sobre as pressões dos grupos e as necessidades psicológicas das crianças e jovens e, no fundo, de todos nós! Necessidades de pertença, de aprovação dos outros, de carinho, de comunicação e auto-estima . Em dada altura, os próprios donos da quinta, um simpático casal de médicos, teceram vários comentários altamente oportunos e úteis, referindo a propósito as três características mais comuns a tantos toxicodependentes que lhes passam pelas mãos : invariavelmente, são filhos de pais que não lhes ligaram na  infância ( independentemente da questão de terem ou não recursos materiais ),  ao começarem sempre julgavam que seriam perfeitamente capazes de  se libertarem quando quisessem e finalmente, todos se envolveram na droga em  busca de pertença a um grupo que os aceitasse, admirasse e lhes desse segurança, a qualquer preço, tudo menos ficarem isolados e sem grupo!

Não acham que nos faz bem pensarmos em tudo isto? Afinal ainda há bons filmes por aí...

(...e lá estou eu a ultrapassar a tal medida certa aconselhada pelos professores de Comunicação...Desculpem, meus amigos, por mais um m2 tão longo !!!)

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