Às vezes ela aparece aí, de
mansinho, quase inadvertida. Bate à nossa porta, não a ouvimos, mas
instala-se sem pedir licença, no meio da nossa actividade e em quaisquer
circunstâncias, e aos poucos, com mais ou menos protesto, acabamos por
aceitá-la e com ela convivemos, com maior ou menor naturalidade. Sabemos
que é e será sempre assim , em todos os tempos. É o nosso fim natural,
mas para poucos, será fácil conviver com ela.
Torna-se porém, tanto mais
difícil, quanto mais brutal, devastadora e imprevisível.
Assim foi, uma vez mais, no dia 11
de Março : a morte chegou a Madrid, não a morte natural, mas a morte
assassina, cobarde e violentamente arremessada contra milhares de
inocentes de todas as idades, no início de mais um aparente dia normal
de trabalho.
( Como em tantas outras ocasiões, o
coração pede-me que pare tudo, mas a razão não me deixa parar mais que o
tempo de , horrorizada, ver e ouvir as notícias, e por eles rezar uma
prece... sinto-me esmagada pela sensação de catástrofe sanguinária,
incredulidade, solidariedade, vulnerabilidade, um tremendo desconforto,
uma espécie de luto universal que transpõe fronteiras, uma imensa pena
que ultrapassa as lágrimas espontâneas, um querer parar para consolar,
partir para curar, dar vida, ajudar, sem poder e sem saber como...pensar
que para sempre, aqui ao nosso lado, milhares de pessoas foram afectadas
directa ou indirectamente e para elas nada voltará a ser como
dantes...nunca mais! Meu Deus, meu Deus, como é possível?... Quando é
que nos transformamos em monstros ?)
Este mesmo mistério imenso do
sofrimento humano – dizem - está bem patente no recente e tão polémico
filme de Mel Gibson, “ A Paixão “ de jesus Cristo, que nesse mesmo dia
estreou entre nós e que brevemente quero ver.
Hoje porém, tinha pensado
falar-vos antes, de dois rápidos “flashes” que apanhei por estes dias.
O primeiro foi na rádio, mais
concretamente na Antena 2, à hora do almoço, no excelente programa “
Jardim da Música”, a propósito das mulheres condecoradas no passado Dia
da Mulher. Ouvi apenas parte da entrevista, mas chamou-me a atenção, a
segurança e alegria com que falava uma das condecoradas, a nossa jovem
maestrina, Joana Carneiro, e sobretudo a referência agradecida que fez
aos pais “como os grandes impulsionadores e incondicionais apoiantes,
sempre presentes nos grandes momentos da sua vida profissional e
familiar.”
Por contraste, lembrei-me de uns
escassos 17 jovens alunos de uma escola do centro, que na verdura e
inexperiência dos seus 13-18 anos, afirmavam, contra a opinião de outros
100, num questionário sobre o Namoro, que “ O ambiente familiar em que
se é educado (a) não tem influência na nossa personalidade e nos nossos
projectos de vida”...Recordo como foi importante o Cenofa ir até lá, a
convite de uma professora, para ajudar os jovens a reflectir sobre
“Educação dos Afectos”... e revejo uma outra professora que dizia, à
despedida : “Não imagina como me sinto só...eles precisam tanto de apoio
e nós próprios, directores de turma, estamos tão sózinhos, tão entregues
a nós mesmos e aos nossos recursos...”.
Pergunto apenas: Que Educação
estamos a dar aos nossos jovens, hoje? Alguém pensa nas dificuldades dos
professores? Na sua indispensável formação humana e espiritual, para lá
do seu saber específico, que aqui não ponho em causa? Acham porventura,
que os professores são meros técnicos ou “robots” incumbidos de
transmitir informações???
O outro “flash” foi um breve
encontro com a “ D. Dourada”- como lhe chamamos, por brincadeira, aqui
em casa, fazendo um trocadilho com o seu verdadeiro nome. É uma
autêntica “public relations” e mulher de negócios na verdadeira acepção
da palavra, ainda que só tenha provavelmente, a antiga 4ª classe. Ia
comigo no carro, há alguns dias atrás e confessava-me as suas grandes
preocupações com o filho único de 30 anos, desempregado, que por
traumatismo de parto, sofre de uma pequena deficiência motora, aprendeu
a falar só aos nove anos e não conseguiu acabar o 9º ano de
escolaridade. Ainda há pouco trabalhava num restaurante dum familiar,
mas teve de sair porque um colega passava o tempo a gozar com ele,
troçando das suas dificuldades. A mãe, vendo o sofrimento do filho,
acabou por tirá-lo, não sem antes dar uma magnífica lição de humanidade
ao jovem trocista. E comentava para mim, de lágrimas nos olhos, do alto
da sua imensa sensibilidade maternal e com a sua elevada inteligência
emocional :
-“ Quando ele era pequenino, sabe,
eu queria tanto que o meu filho fosse inteligente como os outros meninos
e como o meu marido! Esperava tanto que ele tirasse um cursozinho e
fosse mais que a gente...sofri muito...mas sabe a senhora ? Apesar de
tudo, quando olho para ele penso que antes quero que ele seja bom como
é, do que ter muitos estudos, estar muito bem na vida e não ter
coração...”.
Obrigada, D. Dourada ! Deixe-me que
lhe diga aqui, nestas linhas que nunca lerá, que a senhora tem uma tal
delicadeza e finura de sentimentos que me lembra umas palavras que em
tempos li, a propósito de uma grande senhor , já falecido, que pouco
ligava ao seu aspecto exterior, apesar de não lhe faltarem meios, nem
educação e projecção social, “...aquele levava as rendas e os
pergaminhos vestidos por dentro!”
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