A face mais visível do nosso estranho mundo português mudou subitamente,
de um extremo e quase infantil entusiasmo, louco, obsessivo, alegre e
congregante, em torno do Euro 2004, para uma nova imagem fracturante,
fratricida e violenta, em redor do imbróglio político da sucessão de
Durão Barroso.
E
tudo isto, como sempre!, apoiado, estimulado e multiplicado pelos
nossos Media, sedentos e sequiosos de notícias novas. Tudo o mais que
possa estar a acontecer, quase nem parece ter relevo ou existência.
Sobram muros e divisões, faltam-nos pontes e paz.
Simultaneamente porém, somos confrontados com uma recente sucessão de
mortes e perdas de pessoas notáveis, cujos nomes e personalidades a
todos nos dizem alguma coisa por certo, e que no meio de tantas palavras
de reacendidos ódios e combate político, de novo suscitam alguma pausa
de respeito, compaixão e comoção unitiva em todos nós!
Para os mais novos, talvez sejam só nomes e rostos, mais ou menos
conhecidos, mas para os mais velhos, foram pessoas que nos entraram casa
adentro durante muito tempo, quase diariamente, através da televisão,
rádio, livros e jornais.
Aprendemos deles , vibrámos e comovemo-nos com eles, concordámos ou
discordámos, acreditámos ou não, porventura fomos críticos ou
seguidores, mas nunca lhes ficámos indiferentes.
Sousa Franco, Sophia de Mello Breyner, Henrique Mendes, Maria de Lurdes
Pintassilgo, pessoas muito diferentes, mas todas elas, cada uma à sua
maneira, portugueses influentes, aquém e além fronteiras, cuja perda
sentimos e nos impressiona.
No
entanto, Sophia de Mello Breyner, pelo muito valor da sua obra literária
, perdurará na nossa memória e continuará a influenciar ideias,
atitudes e comportamentos de gente de todas as idades, para lá de
todos os tempos e espaços. Conheci-a apenas através dos seus escritos e
em particular, dos “Contos Exemplares” ( não percam, por favor, a sua
reedição) o primeiro dos seus livros que li e que revisito
frequentemente com encanto renovado, mas estranhamente, ( estarei
enganada?), talvez a obra de que menos se tem falado nos últimos tempos.
Ouço a minha filha Rita dizer- “Mãe, apetece-me chorar, queria ter ido
acompanhar o funeral da Sophia, porque gostava tanto dela pelo que ela
escreveu que quase me parecia ser da minha família...”- e compreendo-a
bem!
Ouvi a jornalista Graça Franco comentar que teria sempre de agradecer à
poetisa os belíssimos contos para crianças, que tem lido e representado
para os seus filhos vezes sem conta....também eu os li sempre, deliciada
e fascinada pelo conteúdo e pela forma, como se fosse a primeira vez...e
também eu tenho sincera pena de nunca lhe ter escrito, ao menos um
postal!, a agradecer e a dizer “ Gosto de si, Sophia, obrigada por ser
quem é e como é, obrigada pelo que escreve e nos oferece a todos nós !”
Curiosamente, ontem, também eu estive num outro enterro e em dada
altura, o sacerdote, perante uma assembleia atenta, composta entre
outros, de muitos políticos, interpelava-nos sentida, certeira e
convictamente: “...já repararam como tantas vezes, nos preocupamos muito
mais com o fazer, fazer, fazer, do que com o ser, e depois, quando
alguma coisa não nos corre bem, temos um desaire, ou nos surge uma
doença pela frente, de repente damos conta de que estamos completamente
vazios, sem nada, como que caídos num buraco...? É como se quiséssemos
começar a construção de uma casa pelo telhado (...)Obrigada, M., porque
tu nos ensinaste que mesmo no meio de uma vida social intensa é
possível manter a nossa intimidade espiritual, crescer em vida interior,
dar prioridade ao mais importante, (...) construir a nossa morte...sem
medo da Eternidade...(...).”
Lembrei-me logo do conto “A Viagem”, de Sophia, verdadeira metáfora das
nossas vidas ,que termina num acto de fé, depois de a personagem
principal ter perdido tudo, até o seu companheiro de viagem, à beira de
um precipício, dizendo qualquer coisa como isto ( cito de memória, pelo
que não serão exactamente estas as palavras, mas seguramente muito
parecidas )-“...vou chamar, porque deve estar alguém do outro lado...tem
de estar alguém do lado de lá...”.
Sophia , obrigada
pela profundidade dos seus ensinamentos e pela riqueza da sua mensagem!
À
semelhança da interessante crónica “ Outra porta” de Maria José Costa
Félix, na última revista XIS, do Público, também eu acredito piamente
que “Todos somos mensageiros”. Como ela dizia, “Não é por acaso que
viemos ao mundo num determinado momento da história da humanidade e
inseridos num determinado contexto, seja familiar, intelectual,
económico ou social” ou ainda “(...) o sentido da vida não pode ser
encontrado em nada do que temos, mas apenas no que somos(...)”.
Ora vejam lá se
conseguem recuperar esta revista e ler a crónica, porque vale mesmo a
pena!
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