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m² de 15 de Julho de 2003
Quando eu era pequena o tempo passava tão devagarinho na
minha vida e na minha rua, que dava por mim, frequentemente, aborrecida, a
espreitar pela janela, os poucos carros que então passavam, imaginando formas de
crescer depressa, saltar o portão do jardim e descobrir o mundo enorme lá de
fora para conseguir um dia, enfim, encher os meus dias de coisas novas e viver
aventuras imensas. Só o escuro me metia medo a sério!
Hoje a minha rua é esse mundo. Mesmo que não haja hipótese
de fazer férias fora de casa, basta –me sair à rua para olhar o mundo e
desaparecer qualquer sensação de aborrecimento....
É que aqui há de tudo: mercearias, pastelarias, bate-chapas,
sapateiro, drogaria, talho, quiosque de jornais, boutiques, prédios esventrados
em obras, outros abandonados, venda de pneus, florista, carpinteiro, papelaria,
lavandaria e até a igreja e um jardim lá ao fundo da rua...
E há de todos : dois loucos (que se saiba!), uma mão cheia
de crianças (se tanto!), arrumadores alcoólicos e toxicodependentes (q.b.),
muitos reformados, gente de todas as profissões que vem aqui trabalhar na minha
rua, incontáveis idosos à janela, olhando tristemente pela vidraça dos prédios
velhos, famílias cada vez mais pequenas, alguns anjos por aí esvoaçando, uma
mãozinha cheia de santos e uma imensidade de pecadores, que somos todos nós!
Vinha eu assim cogitando, cosidinha com as paredes, cheia
de sacos de supermercado, num destes fins de tarde, ainda com luz de dia, mas já
com esse meu ancestral medo do escuro - quando de repente me sai ao encontro,
vindo nem eu sei donde, um homem negro, muito magro e andrajoso, de mão
estendida a pedir-me uma esmola, num murmúrio que eu mal entendia. Olhando em
volta, muito rapidamente, não vi ninguém e - confesso! - tive pavor, um frio
inexplicável, uma sensação de que iria ser assaltada e um desejo imenso de
correr e fugir dali a sete pés...parei contudo, disse-lhe que não tinha
dinheiro, mas rebusquei atabalhoadamente entre as minhas compras, à procura de
pão e fruta. No meio da atrapalhação, cai-me a carteira no chão, salta-me o
porta-moedas, abre-se e espalham-se no chão todas as moedas que tinha! E eram
muitas...Sem dizer palavra, o homem abaixa-se – tal como eu – e começa a apanhar
uma a uma, todas as moedas e vai-mas passando, das suas mãos sujas e negras,
para as minhas, limpas e brancas, contrastando com o vermelho da minha cara
envergonhada pela mentira.
Nesse preciso momento, passa um carro da polícia, que se
aproxima e pára junto de nós. Um agente solícito, abre a porta do carro e
pergunta:-“ A senhora precisa de alguma coisa? Esse senhor está a incomodá-la?”
Ainda envergonhada, limitei-me a agradecer, dizendo que não
senhor, ninguém me estava a incomodar e aquele senhor estava simplesmente a
ajudar-me a apanhar o que eu deixara cair no chão. Percebi que o polícia não
ficou convencido e por isso ali permaneceu à distância, mais algum tempo.
Já de pé, e ainda envergonhada, voltei-me para o pobre,
entreguei-lhe algumas moedas, o pão e a fruta e agradeci-lhe a ajuda. De
lágrimas nos olhos, agarrou-me na mão com força, quis beijá-la e disse-me sem
rancor :
– “ Ainda hoje não comi nada, senhora! Obrigado!”
Retomei o meu caminho, dei meia dúzia de passos e pus-me
então a pensar que as minhas moedas não me fariam falta alguma até chegar a
casa. No dia seguinte, ia ao multibanco e levantava mais...com franqueza, que
mesquinhez a minha ! Voltei-me para trás, chamei-o –“oh senhor, venha cá!” mas
nada! Desaparecera já, tão estranhamente como aparecera. Pousei os meus sacos no
passeio, dei meia volta, corri ainda até ao fundo da rua, mas nem vivalma...que
estranho! pensei, triste comigo própria...escusado será dizer, que ao chegar a
casa contei tudo o que me acontecera aos meus!
Eles porém, pouco ligaram à minha história e à minha
sensação de desconforto pelo desperdício de mais uma oportunidade, desejosos que
estavam de me contar a última passada com a Internet... “A mãe sabe que uma
miúda de 12 anos, inglesa, fugiu com um marine americano de 31 anos, depois de
meses de conversa diária de várias horas na Internet, sem que os pais dessem
conta? A mãe afinal é que tinha razão...esta história de falarmos com
desconhecidos é mesmo perigosa...”
Entretanto, um tanto enigmático, o meu Marido, limitou-se a
mostrar-me mais um editorial ( daqueles que eu nunca perco!) do José António
Saraiva, no último Expresso, intitulado “O Portugal do Zé Maria”, dizendo-me
apenas ...”Já agora, depois do jantar, não perdias nada em ler como o fantástico
Zé Maria conseguiu dar cabo dos vinte mil contos que ganhou no Big Brother...”
A legenda dizia assim: “Zé Maria: para as pessoas, como
para os países, o dinheiro fácil é uma ilusão”. Li e gostei. (Como gostei dos
anteriores sobre “um destino para Portugal” e “o lugar de Portugal na
Europa”...Bravo ao sr. director do Expresso!).
Claro, que nessa noite, a conversa poderia não ter tido
fim, porque em última análise, dar ou não dar é mesmo a questão! “Não lhe dês um
peixe, ensina-o a pescar!” Está bem, está certo ! É preciso educar, desenvolver,
ensinar a trabalhar, incutir valores e produzir riqueza . Concordo. É verdade
também, que não se pode criar o hábito de viver à custa dos outros, sempre a
mendigar. E já há muitos! Mas tudo isso leva muito tempo a corrigir e
entretanto, deixam-se as pessoas morrerem à fome? Como é que se ajuda a produzir
riqueza? O quê que cada um de nós, desde o mais pequeno ao mais poderoso, pode
fazer pelos outros? Digam-nos! Ensinem outra vez nas escolas, o que é isso de
solidariedade. E já agora digam também, se faz favor, aos mais novos que não é
vergonha nenhuma não ser doutor e quais as profissões que vale a pena aprender,
para não haver tanto licenciado desempregado e tão poucos electricistas e
canalizadores, por exemplo. Não se pode é simplesmente cruzar os braços,
indiferentes à sorte dos outros , pensando que o Estado, a Igreja e as
instituições de assistência humanitária, é que têm o dever de fazer e ajudar,
enquanto nós, todos contentes, cegos e surdos - como convém - assobiamos para o
ar, por termos nascido numa família onde nada falta e num país, onde apesar de
tudo, sempre há paz, sol, terra e água para todos.
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