Caminho rua fora nesta nossa cidade e ao virar a esquina vejo três
raparigas novas à distância, que vêm na minha
direcção. Falam e riem alto, com aquela garridice tão própria destas
idades, que logo chama a atenção. Já mais próximas, reparo, por baixo dos
guarda-chuvas abertos, como são frescas, vistosas, elegantes e bonitas. De
pastilha elástica na boca, umbigo ao léu e roupas demasiado reduzidas
apesar do frio e da chuva, passam por mim provocantes, na sua quase
insolente sensualidade...por pouco não esbarram comigo e sou obrigada a
ceder-lhes passagem, deixando-lhes entregue todo o estreito passeio.
Sinto-me psicologicamente agredida, atropelada no meu “declínio etário”
natural , como se as minhas rugas, os meus cabelos brancos e os meus
quilos a mais, habitualmente tão confortáveis e bem tolerados, de repente
se pusessem todos de cabelos em pé!!!( Será inveja, ou nostalgia?
Pena???...).
Mais adiante, cruzo-me porém, com um jovem cego, de pasta e bengala na
mão, tacteando em passo incerto, e por momentos, afasto-me de novo, para
lhe dar passagem, com a vaga impressão de que agora serei eu a agressora,
quase envergonhada do meu imenso privilégio de ter olhos que vêem e ele
não...chego a casa e pego nesta lindíssima mensagem que ainda há pouco me
veio à memória e que os meus filhos retiraram da Internet para me darem e
afixarem na nossa cozinha, no placard das coisas importantes, num destes
dias de “melancolia humana” ( como muito bem diz o nosso amigo Luís C.,
não é?). Transcrevo-o, porque ajuda a repensar a nossa vida...
Reflexão: Supérfluo e necessário
Uns queriam um emprego melhor;
Outros, só um emprego.
Uns queriam uma refeição mais farta;
Outros, só uma refeição.
Uns queriam uma vida mais amena;
Outros, apenas viver.
Uns queriam pais mais esclarecidos;
Outros, ter pais.
Uns , queriam ter olhos claros;
Outros, enxergar.
Uns, queriam ter voz bonita;
Outros, falar.
Uns, queriam silêncio;
Outros, ouvir.
Uns, queriam sapato novo;
Outros, ter pés.
Uns, queriam um carro;
Outros, andar.
Uns, queriam o supérfluo;
Outros, apenas o necessário.
Chico Xavier
...Voltando agora ao nosso tema inicial, penso naquelas jovens, nas suas
roupas e atitudes, e folheio o livro “Compreender os adolescentes” da
médica Drª Helena Fonseca, que nos foi dar uma excelente aula na
Universidade Católica. Relembro as suas palavras “(...) o adolescente está
centrado no seu próprio corpo e no corpo dos outros...mede constantemente
a sua capacidade atractiva e de desempenho. Na sua cabeça pairam dúvidas e
incertezas. Serei capaz de ser admirada e de suscitar que alguém goste de
mim?(...)?” Penso então nos conflitos familiares sobre roupas, saídas à
noite e grupos de amigos , problemas tão habituais com adolescentes sempre
“ em busca de autonomia e construção da sua identidade”, no sofrimento que
esta fase comporta para pais e filhos e de como a sociedade ocidental em
que vivemos, se aproveita destas fragilidades para retirar lucros através
de publicidade e moda amorais, e de repente dou um salto até à noite de
domingo passado e a minha mente vagueia já por outros sítios...Ser
admirado, ser amado, o fascínio do espectáculo, a fama, o mito e o
endeusamento efémero dos artistas...( “oh Mãe”, diz –me a minha filha
Teresa, “ nós fazemos deles um mito, não acha? Até nos esquecemos que são
gente como nós, com problemas, frustrações...”)...
Ali estamos sentados no sofá, avô, netos e ...eu ( sim, porque o pai nunca
perde o seu precioso tempo com coisas destas...!) à espera da última gala
da Operação Triunfo...toca o telefone e lá abalam porta fora, três deles,
para irem até à Expo, à festa de apoio a um dos favoritos, o Francisco...
ficamos a ver, noite fora...e eu que até hoje não creio ter falado neste
concurso, terminado o espectáculo, ao desligar a televisão, não posso
deixar de fazer uma crítica final com os meus filhos, que entretanto
estão de volta...e partilhá-la aqui convosco!
A OT , tanto quanto vi – e foi bastante, e cativada como fui sendo ao
longo dos meses, devo reconhecer que perdi demasiado tempo...( uma vez
mais o meu Marido tinha razão...) – teve aspectos muito positivos,
incomparavelmente melhores que qualquer inqualificável Big Brother ( dos
pouquíssimos que alguma vez vi...), começando pelos objectivos de
aperfeiçoamento de dons e talentos naturais num clima de escola, pela
noção de trabalho, esforço pessoal, disciplina e exigência, pela qualidade
e dedicação dos professores, pelo grande coração, criatividade e
genialidade da directora da escola, pelo relacionamento solidário e
exercício de humildade, amizade, gratidão e entreajuda , pela aprendizagem
do saber ganhar e saber perder entre alunos e colegas...
Enfim, um saldo muito valioso, com espectáculos musicais muito bem
conseguidos...Porém, houve vários aspectos negativos que eram dispensáveis
e evitáveis, e que resumo na escolha paradigmática da apresentação final
de um dos favoritos ganhadores com “ Sexual healing”...
Que pena, de facto, num espectáculo certamente visto por milhares de
espectadores entre os quais incontáveis jovens e crianças...sempre esta
tentação de lucro fácil que se apodera dos produtores de programas para
através do chamariz erótico-pornográfico aumentar as audiências...e ali
vimos um Francisco – (com um talento natural imenso, que canta “As pegadas
na areia” como mais ninguém...)- a ser usado em palco como uma autêntica
marionette comandada , numa dança e letra cheia de mensagens directas e de
outras mais subtis, que são profundamente erradas e só o diminuem e
coisificam...que pena, ter “ganho” assim...
É difícil, mas nós próprios, enquanto espectadores, também temos de ajudar
a remar contra a maré...
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