15 Janeiro 2004- O meu m2

Caminho rua fora nesta nossa cidade e ao virar a esquina vejo três raparigas novas à distância,  que vêm na minha direcção. Falam e riem alto, com aquela garridice tão própria destas idades, que logo chama a atenção. Já mais próximas, reparo, por baixo dos guarda-chuvas abertos, como são frescas, vistosas, elegantes e bonitas. De pastilha elástica na boca, umbigo ao léu e roupas demasiado reduzidas apesar do frio e da chuva, passam por mim provocantes, na sua quase insolente sensualidade...por pouco não esbarram comigo e sou obrigada a ceder-lhes passagem, deixando-lhes entregue todo o estreito passeio. Sinto-me  psicologicamente agredida, atropelada no meu “declínio etário” natural , como se as minhas rugas, os meus cabelos brancos e os meus quilos a mais, habitualmente tão confortáveis e bem tolerados, de repente  se pusessem todos de cabelos em pé!!!( Será inveja, ou nostalgia?  Pena???...).

Mais adiante, cruzo-me porém, com um jovem cego, de pasta e bengala na mão, tacteando em passo incerto, e por momentos, afasto-me de novo, para lhe dar passagem, com a vaga impressão de que agora serei eu a agressora, quase envergonhada do meu imenso privilégio de ter olhos que vêem e ele não...chego a casa e pego nesta lindíssima mensagem que ainda  há pouco me veio à memória e que os meus filhos retiraram da Internet para me darem e afixarem na nossa cozinha, no placard das coisas importantes, num destes dias  de “melancolia humana” ( como muito bem diz o nosso amigo Luís C., não é?). Transcrevo-o, porque ajuda  a repensar a nossa vida...

 

                Reflexão: Supérfluo e necessário

 

                Uns queriam um emprego melhor;

                       Outros, só um emprego.

                Uns queriam uma refeição mais farta;

                       Outros, só uma refeição.

                Uns queriam uma vida mais amena;

                        Outros, apenas viver.

                Uns queriam pais mais esclarecidos;

                        Outros, ter pais.

                Uns , queriam ter olhos claros;

                         Outros, enxergar.

                Uns, queriam ter voz bonita;

                         Outros, falar.

                Uns, queriam silêncio;

                         Outros, ouvir.

                Uns, queriam sapato novo;

                         Outros, ter pés.

                Uns, queriam um carro;

                         Outros, andar.

                Uns, queriam o supérfluo;

                         Outros, apenas o necessário.

                        

                         Chico Xavier

  

...Voltando agora ao nosso tema inicial, penso naquelas jovens, nas suas roupas e atitudes, e folheio o livro “Compreender os adolescentes” da médica Drª Helena Fonseca, que nos foi dar uma excelente aula na Universidade Católica. Relembro as suas palavras “(...) o adolescente está centrado no seu próprio corpo e no corpo dos outros...mede constantemente a sua capacidade atractiva e de desempenho. Na sua cabeça pairam dúvidas e incertezas. Serei capaz de ser admirada e de suscitar que alguém goste de mim?(...)?” Penso então nos conflitos familiares sobre roupas, saídas à noite e grupos de amigos , problemas tão habituais com adolescentes sempre “ em busca de autonomia e construção da sua identidade”, no sofrimento que esta fase comporta para pais e filhos e de como a sociedade ocidental em que vivemos, se aproveita destas fragilidades para retirar lucros através de publicidade e moda amorais, e de repente dou um salto até à noite de domingo passado e a minha mente vagueia já por outros sítios...Ser admirado, ser amado, o fascínio do espectáculo, a fama, o mito e o endeusamento efémero dos artistas...( “oh Mãe”, diz –me  a minha filha Teresa, “ nós fazemos deles um mito, não acha? Até nos esquecemos que são gente como nós, com problemas, frustrações...”)...

Ali estamos sentados no sofá, avô, netos e ...eu ( sim, porque o pai nunca perde o seu precioso tempo com coisas destas...!) à espera da última gala da Operação Triunfo...toca o telefone e lá abalam porta fora, três deles, para irem até à Expo, à festa de apoio a um dos favoritos, o Francisco... ficamos a ver, noite fora...e eu que até hoje não creio ter falado neste concurso, terminado o espectáculo, ao desligar a televisão, não posso deixar de fazer uma  crítica final com os meus filhos, que entretanto estão de volta...e partilhá-la aqui convosco!

A OT , tanto quanto vi – e foi bastante, e cativada como fui sendo ao longo dos meses, devo reconhecer que perdi demasiado tempo...( uma vez mais o meu Marido tinha razão...) – teve aspectos muito positivos, incomparavelmente melhores que qualquer inqualificável Big Brother ( dos pouquíssimos que alguma vez vi...), começando pelos objectivos de aperfeiçoamento de dons e talentos naturais num clima de escola, pela noção de trabalho, esforço pessoal, disciplina e exigência, pela qualidade e dedicação dos professores, pelo grande coração, criatividade e genialidade da directora da escola, pelo relacionamento solidário e exercício de humildade, amizade, gratidão e entreajuda , pela aprendizagem do saber ganhar e saber perder  entre alunos e colegas...

Enfim, um saldo muito valioso, com espectáculos musicais muito bem conseguidos...Porém, houve vários aspectos negativos que eram dispensáveis e evitáveis, e que resumo na escolha paradigmática da apresentação final de um dos favoritos ganhadores com “ Sexual healing”...

Que pena,  de facto, num espectáculo certamente visto por milhares de espectadores entre os quais incontáveis jovens e crianças...sempre esta tentação de lucro fácil que se apodera dos produtores de programas para através do chamariz erótico-pornográfico aumentar as audiências...e ali vimos um Francisco – (com um talento natural imenso, que canta “As pegadas na areia” como mais ninguém...)- a ser usado em palco como uma autêntica marionette comandada , numa dança e letra cheia de mensagens directas e de outras mais subtis, que são profundamente erradas e só o diminuem e coisificam...que pena, ter “ganho” assim...

É difícil, mas nós próprios, enquanto espectadores, também temos de ajudar a remar contra a maré...

Comentários, críticas e sugestões : fonsecas@netcabo.pt

WB00789_.gif (161 bytes)