Tinha iniciado já um
“m2” completamente diferente, mais atento às eleições que se aproximam,
quando os últimos acontecimentos me “empurraram”- na verdadeira acepção
da palavra- a escrever o presente.
Lúcia, a última dos três
pastorinhos videntes de Fátima, acaba de morrer, numa idade avançada, de
uma morte tranquila, num dia 13, comovendo multidões de crentes de todo
o mundo, recordando-nos a mensagem de Fátima e chamando sobre si as
atenções de que sempre fugiu em vida.
Não a conheci, nunca
fui ao Carmelo, não fui a Coimbra despedir-me, nem sequer tenho ouvido,
visto, ou lido praticamente nada do que as rádios, televisões e jornais
têm comunicado, mais por real impossibilidade do que por falta de
vontade.
Contudo, vou contar-vos
um episódio que guardo cuidadosamente na minha memória e que há muito
pensava passar ao papel.
Como muitos sabem, as
aparições de Fátima, tal como em tantos outros lugares do mundo - muito
embora não sejam dogma de Fé - têm “ tocado” muitas vidas, e
ocasionado verdadeiros “ milagres”, não tanto no sentido de curas de
doenças físicas, que também tem havido, mas sobretudo influenciando
benéfica e inexplicavelmente a vida de muita gente. Disso vos queria
falar!
Corria o ano de 1978. No
início de Setembro, fui pela primeira e única vez na minha vida, aos
EUA, ao encontro de meu Marido, oficial de Marinha, que aí estava a
frequentar um curso,. A viagem foi perfeitamente decidida e reservada à
última hora, levando comigo o meu filho mais velho, então com cinco
anos. Ao entrar no avião, dirigimo-nos aos nossos lugares , onde já
estava um estrangeiro sentado à janela. Ao ouvir o meu filho
perguntar-me se não podia ir antes à janela “ para ver se lá em baixo
havia tubarões” quando sobrevoássemos o mar, o estrangeiro sorriu,
falou-nos num português americanizado, ofereceu-lhe o seu lugar e assim
ficámos os três em lugares diferentes dos previstos. Ao longo das cerca
de sete horas de viagem até NY, donde nós partiríamos depois para
Newport, Robert N. contou-me toda a sua vida.
Vivia em Portugal há
vários anos, mais exactamente numa aldeia, Moita. Órfão, fora educado na
América, numa instituição de freiras, donde saíra pelos 16 anos. Depois
fizera um pouco de tudo, esquecendo por completo a educação recebida.
Solteiro, jovem, grande apreciador da beleza feminina, andava pelos
concursos de “misses” , saltando de paixão em paixão, vivendo uma vida
boémia. No entanto, conforme me contou, uma rotina nunca deixou de
manter : a visita semanal a uma instituição de crianças deficientes, das
quais cuidava e com quem brincava durante algumas horas.
Certo dia- trabalhava então na Força Aérea
Americana- ao entrar num avião, queixou-se a um colega de uma terrível
dor de cabeça. Vacilou e pouco depois, caía por terra. Levado ao
hospital de imediato, foi-lhe diagnosticada uma grave encefalite. Entrou
em coma e ficou hospitalizado longos meses. Quando finalmente voltou a
acordar, sem forças, sem capacidade de andar ou sequer de se pôr de pé,
reparou que alguém lhe pusera sobre a mesa de cabeceira, uma pequena
imagem , de que ele nunca ouvira falar. Quis saber quem era e por fim
alguém lhe falou num país Portugal, e numa terra, Fátima, onde se dizia
que Nossa Senhora tinha aparecido. Lentamente, a fé adormecida e um
desejo intenso de voltar a ter saúde levaram-no a acarinhar o sonho de,
um dia, se voltasse a ficar bem, vir a Portugal, conhecer Fátima, de que
passara a ter apenas uma imagem como referência e companhia. Assim
aconteceu. Mais de um ano depois, Robert conseguiu cumprir o seu sonho.
Veio a Portugal integrado numa excursão de americanos , de que ele era o
mais jovem. Na Cova da Iria pela primeira vez ouviu a história daquelas
três crianças, Jacinta, Francisco e Lúcia, e profundamente tocado pela
mensagem da Senhora e pelo testemunho das três crianças, envergonha-se
do seu passado e resolve mudar de vida. No regresso a Lisboa, para
partir no dia seguinte para os EUA, fica alojado numa pensão residencial
modesta e ao deitar-se só pensa em como gostaria de ficar para sempre a
viver em Fátima. Nessa noite, deflagra um incêndio na pensão, todos os
clientes são evacuados e entre os danos sofridos, Robert N. perde os
poucos haveres e o próprio passaporte, o que o obriga a ficar mais uns
dias no nosso país. Aproveita e com apoio da sua Embaixada, que lhe
empresta dinheiro, Robert volta a Fátima e procura um local para viver,
seguro de que é esse o caminho a seguir. Quer prosseguir na divulgação
da mensagem de Fátima. Volta aos EUA finalmente, para ultimar os
preparativos e alguns meses mais tarde vem definitivamente para Cova da
Iria. Acaba por construir com as suas mãos a casa de pedra onde vive
solitário e modestamente ( ou vivia ainda há pouco tempo, quando lhe
falei pela última vez). A partir de então passou a dedicar-se
exclusivamente à oração, à causa da beatificação dos dois pastorinhos,
Jacinta e Francisco e à divulgação da mensagem.
No final da nossa
viagem encheu-me de pagelas em inglês com a história das duas crianças e
pediu-me que as distribuisse por onde passasse. Senti-me abalada . Anos
mais tarde, a partir de um ou dois dados que recordava da nossa viagem,
escrevi para Fátima, fui procurá-lo, encontrei-o na Capelinha e voltei a
faze-lo ainda uma outra vez, querendo confirmar o que agora vos relato.
Fui também pedir-lhe orações por gente amiga em grande aflição, ciente
de que aquele era um homem Bom capaz de ajudar pela oração quem dele se
acerca. Claro que ele não se lembrava de mim. Eu sim; como poderia
esquecer aquela viagem? Curiosamente, disse-me então, que aquele
Setembro de 1978 tinha sido a última vez que voltara aos EUA, onde ia
fazer prova de vida anual para receber a pensão a que tinha direito !
Jacinta, Francisco e
Lúcia levaram-lhe a mensagem da Virgem Nossa Senhora e mudaram o curso
da sua vida. Como a tantos outros.
Robert N. tem feito o
mesmo a muita gente.
“Como uma pedra lançada
a um lago , que vai produzindo círculos sucessivos”.
Na verdade todos fazemos
parte da imensa família humana, por isso de cada vez que nos cruzamos
nas estradas da vida podem dar-se acontecimentos extraordinários, entre
os quais aquilo a que os crentes chamam de conversões ou mudanças de
vida.
Como os “links” da
Internet que nos podem levar a “sites” maravilhosos e a fantásticas
descobertas, assim acontece com as pessoas que se cruzam connosco e nos
desvendam paisagens do espírito. Há encontros decisivos e
transformantes.
Agora percebem por que
razão a partida da Irmã Lúcia literalmente me “empurrou” a escrever
este “m2” e não outro qualquer? É um modo de dizer “obrigada”!
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