Mais um fim de tarde terrivelmente chuvoso, frio e
desagradável. Atravesso as ruas da Baixa, apressada, carregando sacos, com
trabalhos da ACMedia e lindos presentes de Natal, muitos embrulhos cheios de
laços e papel brilhante, mas na verdade muito cheios de nada... Cansada, impaciente e preocupada com a palestra dessa
noite numa escola, vou esperar um taxi na fila junto ao Teatro D. Maria II. Vejo
montras, luzes , decorações, penduricalhos sem significado, uns pobres , outros
vistosos, a engalanar as ruas, mas Natal é que não parece...aqui e ali ainda se
reconhece uma estrelita e pouco mais...Ouve-se no ar música cabo-verdiana, uma “
morna” primeiro e depois música inglesa, mas música de Natal não ouço...pelas
costas, lá descubro um Pai Natal, magrinho, magrinho, mas ao passar por ele,
verifico tratar-se de uma rapariguinha de rosto esquálido e quase tão pálida
quanto as suas barbas. Mais adiante, pachorrentamente sentado num caixote, outro
pai Natal lê o jornal Record. Espero um taxi que não vem, ao frio e à chuva miúda, um
tanto triste e preocupada com a reunião dessa noite, nas Caldas da Rainha. Vou esperando de mão dada com a minha Mãe.(Desculpem! É
mentira, mas por momentos quase me pareceu verdade...afinal , pousados os sacos,
na mão só tenho a pega da mala preta da minha Mãe, que agora uso. Penso nela,
que pela primeira vez não estará já connosco neste Natal...) Finalmente chega a minha vez. Entro num taxi quente,
acolhedor, ao som da voz inconfundível de Andrea Bocelli. Surpreendida,
reconheço a Ave Maria de Bach / Gounod ( ...Benedicta tu in mulieribus...).
Comovo-me: era aquela uma das preferidas da minha Mãe e além disso, ali dentro é
Natal !. Está feita uma primeira ponte entre nós, mesmo sem palavras. O
motorista, um homem de idade e de sorriso triste, vai levar-me até casa.
Começamos a conversar. Fala-me desta música de que tanto gosta, do filho que
perdeu, da doença da mulher, do seu amor ao trabalho...e eu pergunto-lhe como
aguenta este stress do trânsito todo o dia. Sorri e mostra-me a colecção de CD’s
de música clássica, o seu hobby. Confessa-me que neste tempo de Natal,
propositadamente, só ouve música sacra, para ajudar a acalmar os passageiros e
lhes lembrar que é Natal. Acho curioso. Calamo-nos os dois para ouvir a Ave
Maria de Schubert (...la pace che solo tu puoi donar. Ave Maria...).
Conto-lhe, também eu, a minha pena pelas montras e pelas ruas onde passei e onde
vi tão poucos sinais de Natal. Começa o “Panis Angelicus” de Franck e não
conseguimos falar. Nem ele, nem eu. O carro avança devagar - (...o res
mirabilis!...pauper, pauper, servus et humilis...) - janelas fechadas,
escuro ali dentro, calor q.b., não sei se do aquecimento ligado, mas sinto-me
bem ! Recomeçamos a conversa e falamos do vagabundo novo ali deitado na R. dos
Fanqueiros, entre jornais, cartões e manta, sempre de panamá sobre os caracois
escuros. Do ucraniano, que acabei de ver, com olhar perdido e ar doente, semi -
estirado no chão da rua, comendo vorazmente vários pães, enquanto a ambulância
se prepara para o levar. E dos muitos seropositivos jovens, em cada esquina, com
bloco - notas na mão e laçinhos encarnados, a pedirem “ qualquer coisinha”. E do
jovem de 26 anos, que andava numa escola de futebol e por causa das más
companhias , está hoje com sida, hepatite e tuberculose, mas que no dizer da
pobre Mãe, “ está muito melhorzinho e anda agora muito feliz, porque com o
dinheiro da pensãozinha que recebe do Estado, comprou um carrito para se
distraír...”Também falamos de um outro toxicodependente, internado numa clinica
particular, cuja conta mensal de 400 contos ( no tempo dos contos) é em parte
suportada pela família, mas 80% são pagos pelo Estado...( como é que o Estado
pode ajudar as famílias numerosas ? )...Será verdade? Questionamo-nos. À chegada a minha casa, tenho pena de acabar a conversa
com o filósofo - taxista, que ainda me diz , em jeito de despedida : -“Olhe
minha senhora, esta vida são dois dias...só vale a pena descobrir que é mais o
que nos une do que o que nos separa, não acha? Para quê tanta guerra, tanta
greve, tanta zanga...se nascemos e morremos todos iguais ?...sem nada nascemos e
nada levamos...o que é preciso é ajudarmo-nos uns aos outros e fazermos um mundo
melhor, não acha?” Sorrio-lhe, concordando. Apetecia-me dar-lhe um beijo, mas
fico-me por um aperto de mão caloroso. Levo nos ouvidos o som inesquecível de
“Mille cherubini in coro”, de Schubert (...Dormi, dormi, sogna, piccolo amor
mio...).Obrigada sr. Almeida e Bom Natal! Nessa mesma noite, já debaixo de um temporal, seguimos por
fim, meu Marido e eu, para a tal escola nas Caldas da Rainha, para um debate
intitulado “Pais e Professores. Quem ensina? Quem educa?”. Na mesa encontraria
um simpático grupo composto pela coordenadora do Projecto de Educação para a
Cidadania, a nível do Conselho da Europa, um responsável pelo Sindicato de
Professores ali da zona e uma Mãe da Associação de Pais da mesma escola. De uma população de 1300 alunos e após um esforço colossal
da imparável Associação “Jovens em Movimento”, apoiada por alguns adultos,
comparecem cerca de 30 pessoas, o que deixa alguns mais desalentados. Mas nada
se perde e vale sempre a pena! Este “ m2” já vai um pouco longo e o tema das Relações
Família - Escola bem merece voltar a ser tratado. Contudo, gostaria de deixar
aqui registada a pergunta final de uma Mãe de 7 filhos ( que também contou como
tinha tido de fazer uma opção de mudar de Lisboa para as Caldas para poder dar
maior atenção aos seus filhos! Bravo!) : “...Mas como havemos nós de convencer
os outros Pais a virem à escola, a estas reuniões sobre a Educação dos seus
filhos e aos encontros com os Directores de turma? Como?” A minha resposta habitual é não desanimar e , à semelhança
destes jovens lutadores , continuar a organizar, dinamizar , convidar, para
acordar os outros Pais, do sono, cansaço, desinteresse, e da inércia e do peso
das dificuldades reais... Naquele momento, lembrei-me de umas imagens recentes da
televisão, a propósito da Maré Negra , em que jovens Voluntários de Esposende,
creio que ligados a uma Associação de Protecção do Ambiente, integrados na
operação “ Ganso Patola”, vão pelas praias e rochas, à procura, uma por uma, das
aves em perigo, para as salvarem, com todo o carinho. É isso o que há a fazer com os Pais: é preciso ir ter com
os nossos amigos e conhecidos, em crise ou não, conversar com eles, um a um,
para os despertar e “salvar” da lama preta e pegajosa das dificuldades e
distracções do nosso tempo, para os ajudar a assumir o seu papel de Pai e de
Mãe, com sentido de responsabilidade. Um por um. Os nossos filhos precisam do nosso tempo e temos de lhes
dar tempo enquanto é tempo.
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