Abro a caixa do correio, à chegada a
casa, como de costume, mecanicamente, enquanto vou cantarolando a música
dos Tribalistas, “Velha Infância”( que confesso, me “apanhou” por
completo!). Entre o correio habitual da época encontro um enorme envelope
de correio azul, cuja letra incerta, difícil e torta, logo me denuncia a
sua proveniência ! Lá dentro vem um pequeno cartão de Boas Festas, com um
presépio, todo escrito nos quatro lados, com aquela inconfundível
caligrafia, que guardo intacta na memória! É da G., eu sei, e nem
precisaria de ler o remetente! Lá está!
Recordo a história já distante
daquela rapariguinha então de 13 anos, hoje mulher feita, com dificuldades
imensas de expressão e articulação das palavras, mas com uma vontade
férrea e uns pais e dois irmãos sempre disponíveis e protectores.
Fisicamente, a G. continua quase
igual, mas agora vive numa cidade do litoral e alcançou a autonomia
possível, trabalhando numa loja .
Recordo os seus olhos negros tão
expressivos, as suas zangas quando não conseguia o que queria, os seus
imensos esforços e as suas pequenas-grandes vitórias tão aplaudidas!
Mesmo sem querer, vem-me à memória
como aqueles pais foram corajosos e viveram a sua maternidade e
paternidade com angústia, sim, mas com responsabilidade e ternura, sem
darem ouvidos a quem já então lhes dizia que era melhor abortar, dada a
problemática gravidez...Pessoalmente, tenho de vos dizer que foi para mim
um autêntico desafio e um privilégio, ser professora da G. durante três
anos e manter estreito contacto com aquela família!
...Volto ao carro, mesmo a tempo de
o retirar, ante o perigo iminente de ser alvo de mais uma lição de
cidadania rodoviária por parte da Polícia Camarária, com os seus novos
métodos – o chamado “perigo amarelo”! (Conhecem?) ! A meu lado, uma
carrinha com luzes azuis, girando em alerta, lá dentro dois guardas ,
muito aplicados : um aplica coimas, outro, os bloqueadores... serenamente,
ambos dizem cumprir apenas ordens superiores para que a desordem e o caos
não sejam ainda maiores nas ruas de Lisboa. De facto, não gosto e
complica-me a vida, mas a verdade é que tenho de reconhecer que alguém tem
de dar sinais claros de que o respeito pelo outro e o bem de todos tem de
estar acima dos meros interesses egoístas de cada um de nós... neste caso,
o meu ( farta que estou de dar voltas e reviravoltas ao quarteirão em
busca de um lugar...).
Ligo o rádio e neste fim de tarde,
enquanto vou tentando circular pelas ruas de Lisboa, tão cheias de belas
decorações de Natal, volto a ouvir a minha música favorita, “ Velha
infância”:...seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da
escuridão...seus pés me abrem o caminho...eu gosto de você...
E dou comigo a pensar de repente, se
neste Natal, vão ser estas luzes sempre fascinantes do comércio e das
ruas, das janelas e varandas, a iluminar enganadoramente a nossa
escuridão, ou se vai ser antes, essa Luz que permanece e nos vem do
Presépio.
Pergunto-me baixinho, se ainda é Ele
que vai guiar os nossos passos, ou se vamos deixar que sejam as leis dos
homens, feitas e desfeitas ao sabor de maiorias, modas, caprichos e
cegueiras de governantes e legisladores, venham eles donde vierem!- que
nos vão dizer como pensar e actuar...e moldar esta nossa tão frágil
consciência...que de tão pouco e mal usada, já nem sequer consegue
perceber que uma interrupção voluntária da gravidez é e será sempre tirar
a vida a outro, neste caso, um filho, por mais pequeno, incómodo e
deficiente que ele possa ser!
Santo e feliz Natal, meus Amigos !
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