Trocado o computador pelos tachos e
panelas, máquinas de roupa e sucessão natural de tarefas domésticas
sempre inacabadas, as férias de verão em família, sobretudo numerosa, -
esteja ela onde estiver, à beira-mar, no campo ou na cidade - acabam
por gerar uma certa confusão e mudança de horas e rotinas !
Necessariamente com consequências também na simples elaboração destas
pequenas crónicas...
Efectivamente, os assuntos mais
inspiradores acumulam-se e perdem a actualidade, se não forem logo
comentados, e por outro lado, bem vistas as prioridades, a sobrevivência
da própria família e o tempo que lhe deve ser dedicado não se compadecem
de escritas amadoras como estas, que como tal passam de imediato a um
lugar secundário na ordem das actividades !!!
Voltando pois, a estas lides,
gostaria de vos contar uma breve história passada na praia de onde acabo
de regressar, lá pelos Algarves. Entre amigos, no meio de uns mergulhos
saborosos, juntamo-nos à mesa de um café. A conversa deslizara
fatalmente, para uns divórcios recentes de gente conhecida. Em dada
altura, contava-se como um jovem casal, pais de três filhos pequenos,
casados há 7 anos, fora pedir conselho a um advogado e como este,
friamente, em poucos minutos, escrevinhara num papel os passos a dar
para a concretização rápida do divórcio, separação de bens, etc. Os
presentes, muito embora sabendo que o assunto é delicado e pessoal, só
diziam, com tristeza : -“ Mas vocês não acham que o advogado lhes devia
aconselhar calma e que reconsiderassem as implicações que o divórcio vai
trazer para as crianças? Não devia dizer-lhes que as crises conjugais
são naturais, muitas vezes ultrapassáveis com ajudas de fora e com o
esforço de parte a parte, e não necessariamente o fim de uma relação(...)?”
A conversa dava pano para mangas e
no final, todos concordávamos – sobretudo os veteranos casados ali
presentes – que fazem muita falta mais gabinetes de Orientação Familiar
e Mediação Familiar, gente disponível para ajudar na preparação de
Noivos para o casamento- seja ele religioso, ou civil- e para apoiar os
casais em situação de pré-crise ou crise declarada. Se todos os doentes
devem ter acesso ao tratamento e cura dos seus males, porquê condenar à
“morte” os casamentos “doentes” logo que surgem desinteligências de
qualquer gravidade???
...Por estes dias também, muito se
tem falado nos nossos Media, na tentativa de suicídio de uma jovem
figura conhecida, lançada no super-efémero estrelato do Big Brother e
afins.
Muito embora respeitando o direito
à privacidade, que lhe foi negada, é importante reflectir sobre alguns
comentários de psicólogos e psiquiatras, para que todos possamos dar
conta do poder imenso dos Media e de como a manipulação das pessoas pode
ter efeitos dramáticos e trágicos na sua conduta.
De facto, extrapolando esta
situação concreta, importa perceber que o suicídio é quase sempre
causado pelo chamado sofrimento psicológico ( “drama na mente”), uma dor
muitas vezes desvalorizada e ignorada pelos outros familiares, que a
pessoa suporta sozinha, frequentemente com vergonha até de falar nela.
Ver-se, por ex., de um dia para o
outro, transplantado para um meio cultural completamente diferente,
ser-se catapultado para um ambiente de fictício heroísmo, ver-se nas
primeiras páginas e nos telejornais, receber atenções, mimos e lisonjas
inesperadas, dinheiro a rodos de uma só assentada, sem estar minimamente
preparado para tal, e passado pouco tempo, como um objecto que já não
nos interessa porque já satisfez os nossos caprichos, ser-se posto de
lado e esquecido , é qualquer coisa que necessariamente deve afectar o
equilíbrio psicológico e físico de qualquer pessoa. Independentemente
até, de quaisquer vulnerabilidades que a pessoa já pudesse ter
anteriormente.
Como diz quem sabe, uma tentativa
de suicídio é sempre algo que não acontece de repente ,ou por acaso; ela
é o fim de um processo lento de percepção crescente da própria dor
psicológica que se vai agravando até se tornar de tal modo insuportável
que nada parece restar senão a morte. Tudo perde sentido na vida destas
pessoas, que sem crenças ou referências espirituais de apoio, julgam
portanto, não ter outra saída, senão buscar o alívio da morte.
No entanto, como ensinava a Drª
Clara Sá da Bandeira, em aulas recentes na Universidade Católica, as
pessoas com tendência suicidária precisam perceber que “...o seu
sofrimento pode ser ajudado, que o seu problema é levado a sério, que
têm alterações bioquímicas que exigem medicação urgente e contínua, que
perderam o controle da situação e precisam de ajuda de outrem”. O que
importa é chegarmos a tempo!
A questão porém que aqui queria
salientar, reside a meu ver, na responsabilidade moral dos Media, que
não podem continuar a reger-se por meros objectivos
económico-financeiros- ganhar, ganhar, ganhar, conseguindo mais e mais
audiências !- sacrificando e transformando as pessoas em meras “
marionettes” ao sabor dos caprichosos ventos mediáticos...
Quereria aliás, a terminar,
recordar aqui um recente programa americano do notabilíssimo talkshow
“Oprah Winfrey Show”, exactamente sobre pais que querem por força
transformar os seus filhos, desde crianças, em estrelas de cinema ou
modelos de “passerelle”, e em que se falava precisamente sobre o
reverso da medalha, que é a tensão permanente em que essas crianças
vivem e o fracasso com que muitas vezes precocemente têm de lidar !
Uma lição para muitos pais!
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sugestões : fonsecas@netcabo.pt