Acabo de ler no jornal “ Público” uma
interessante entrevista com a Drª Margarida Neto, Comissária para os
Assuntos de Família, a propósito da subida de 46% da taxa de divórcio,
em Portugal, em 2002, em que a mesma era justificada como uma espécie de
“ inevitabilidade relacionada com a nossa forma de viver e com a forma
como fomos banalizando o divórcio, e de certo modo, o casamento.”
Acrescentava que “(...) cultivamos
pouco a relação ( conjugal) e as expectativas de satisfação, de
sexualidade, de amor, de realização pessoal e profissional e de viver um
amor com aquela pessoa ( com quem se casa) são muito altas. Mas este
número avassalador de divórcios significa que não conseguimos manter
essas expectativas(...) e tudo isto (se processa ) com grande
sofrimento.(...)Aos psiquiatras chegam em primeiro lugar os professores,
e depois, muitas mulheres de 40 e poucos anos, completamente espatifadas
(...) que tentam funcionar como super-mulheres(...)”.
Referia-se ainda, a Dra Margarida
Neto, ao impacto tremendamente negativo do divórcio na estrutura social,
afirmando abertamente que “ uma sociedade coesa e forte precisa da
família estável, de empresas estáveis, e de repente, olhamos para a
sociedade portuguesa e vemos as famílias desestruturarem-se, empresas (
com situações) complicadas, uma vida que é um stress permanente(...)!”
Ao ler estas palavras que nos
alertam uma vez mais, para além da urgência de melhor construír e
proteger conjugalidade e parentalidade, também para a difícil
conciliação Família- Trabalho, lembrei-me que estou em falta para com a
tão estimável e estimada APFN- Associação Portuguesa de Famílias
Numerosas- já com perto de 3.000 sócios ! – que tantos esforços tem
envidado em defesa não só das famílias numerosas, como de todas as
famílias portuguesas, e cujo Presidente, em finais de Março último, foi
muito justamente escolhido para Presidente da Confederação das
Associações Europeias de Famílias Numerosas.
De facto, ainda aqui não mencionei
o recente e valioso contributo da APFN para a celebração dos 10 anos do
Ano Internacional da Família, com a realização na Fundação Gulbenkian,
em Lisboa, do II Congresso Europeu de Famílias Numerosas, no passado dia
27 de Março, em que estiveram presentes vários membros do governo,
representantes e delegados de todo o País- Continente e ilhas – e dez
estrangeiros, representantes de outras associações europeias congéneres,
bem como muitos outros participantes.
Num ambiente de frescura, alegria e
criatividade- com coros de crianças e jovens, momentos de poesia e
distribuição de flores a todos os presentes por mais de 40 crianças,
filhas de alguns dos muitos participantes, que estiveram presentes no
início e no final do Congresso intitulado “Famílias Numerosas :
Primavera numa Europa envelhecida”- foram excelentes as diversas
intervenções.
De realçar sobretudo, no dizer de
muitos, a apresentação da Profª Drª Maria Teresa Ribeiro, do
Observatório dos Assuntos de Família, um estudo inédito e arrasador da
Deloitte and Touche sobre “Família e Fiscalidade na Europa” e ainda a
apresentação da Profª Drª Nuria Chincilla ( IESE, Univ. de Navarra),
intitulada “Empresas familiarmente responsables”, complementada pelo
Engº Ramalho Fontes ( director-geral da AESE).
Sem querer menosprezar ou relegar
para segundo plano a insubstituível necessidade de mulheres e homens,
mães e pais de família, assumirem lealmente os seus compromissos e
fazerem escolhas responsáveis, não posso deixar de resumir aqui algumas
das pistas deixadas para Governos e empresas, que ali foram apontadas
como caminho para uma melhor conciliação Família-Trabalho, a saber :
urgência de políticas de flexibilidade de horários e locais de
trabalho, políticas de cuidado e atenção aos dependentes, políticas de
oferta de serviços domésticos e outros, de aconselhamento profissional e
pessoal, políticas de formação e desenvolvimento e ainda, incremento de
outro tipo de benefícios e prémios extra-salariais que privilegiem de
facto, a defesa das famílias e do seu bem-estar como garante dum maior
empenho e dedicação dos trabalhadores.
(Dir-me-ão “mas vocês já têm a
promessa de 100 medidas do Governo ! Não é justo que esqueçam tão boas
vontades !” e responderei que sim, nós, as famílias, agradecemos,
reconhecemos o esforço ...mas... por ex. o desagravamento fiscal face a
quem decide divorciar-se é francamente pena que tenha ficado
esquecido...).
A terminar, queria ainda salientar
o recente lançamento de um estudo do Prof . João Carlos Espada , da UCP,
sobre a experiência familiar norte-americana, dos últimos 30 anos, e do
qual se retiram importantes conclusões com forte interesse até
pedagógico, para a leitura dos acontecimentos no nosso país... Por ex.:
“(...) as crianças criadas em famílias biparentais, casadas, em
comparação com outras tipologias familiares, completam mais anos de
escolaridade, conseguem níveis de rendimento mais elevados e aparentam
ter uma maior probabilidade de não caírem na delinquência juvenil.”
Com efeito, comprova-se aí, entre
outros dados relevantes, que “a monoparentalidade contribui
decisivamente para níveis mais altos de criminalidade e delinquência
juvenil, abandono e insucesso escolar e reflecte-se nos padrões de
comportamentos familiares destas crianças no seu futuro”, quando
adolescentes, jovens e adultos.
Fiquemo-nos por aqui! Para
pensarmos, divulgarmos e reagirmos dentro e fora das nossas próprias
famílias, a tempo, enquanto é tempo.
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sugestões : fonsecas@netcabo.pt