Um jornalista não pode atrasar
trabalho. Um jornalista tem de lá estar, no local do acontecimento, se
possível, com aquela intuição que lhe deve ser peculiar, ainda antes do
acontecimento, ou quando muito logo após, mas sem atrasos, quando não,
alguém chega primeiro e se apossa do material, a notícia!
Mas eu não sou jornalista. Também
não tenho qualquer orgulho em chegar atrasada...mas a verdade é que – (
e os jornalistas deveriam dizer sempre a verdade...) –
chego atrasada muitas mais vezes do que eu quereria...não por
desrespeito intencional, mas porque me entusiasmo facilmente com as
pessoas, as actividades e os desafios, porque me distraio com outros
acontecimentos fora do calendário das previsões e tenho dificuldade em
estabelecer prioridades...acho sempre que o meu tempo chega para tudo,
mas de facto, não chega... bem, mas tudo isto para quê?
Para vos dizer que esta “
croniqueta” começou a ser feita no dia da Criança, 1 de Junho, mas
imperdoavelmente tem estado à espera de qualquer outra coisa ( nem eu
sei bem o quê!) para terminar e por isso só hoje vos chegará às mãos...e
no entanto, já tanto de inopinado aconteceu , de maior e menor relevo,
dentro e fora do nosso país, neste tempo de campanha política, vésperas
de eleições , Rock in Rio e loucura geral!, finalmente o Euro 2004 que
hoje começa ...! Tanto, que mesmo que eu quisesse, jamais o conseguiria
sintetizar aqui neste espaço do “m2” !
A verdade porém, é que não sou
jornalista, muito menos escritora, ou poetisa, e assumo-me apenas como
uma “curiosa das letras” e observadora da vida, vossa companheira em
trânsito na viagem desta vida, com um certo gosto por falar de pessoas e
coisas que observamos, que frequentemente nos passam a correr, mesmo ao
lado, e outras ainda, que pensamos, mas que poucas vezes registamos no
papel. Não chegam sequer a ser notícia. Mas são garantidamente, razões
da nossa esperança!
1 de Junho, dia da Criança.
Atravesso o jardim florido da minha meninice - o recém-remodelado
Jardim da casa da Moeda - hoje, como dantes, local de encontro de
crianças, mães, avós, professoras, desempregados, reformados e pobres.
De repente, encontro-a e caímos nos
braços uma da outra.
Querida Senhora D. Fernanda! 92
anos bonitos, distintos, direitos! Vê-la assim tão bem
depois de a ter encontrado quase
desmaiada na rua, há cerca de um ano, comove-me e espanta-me...eu que
julgava que já não estaria entre nós....
Pergunto-lhe pela família. Com um
olhar triste, diz-me que a filha, Maria João, exactamente da minha idade
( 53) morreu em Janeiro, após longa luta contra o cancro. Lembro-me de a
ver – uma mulher muito bonita, com cabelo ou sem cabelo! – nos
intervalos do tratamento, sempre de regresso ao trabalho, uma
indomável lutadora!
Depois fala-me também, da morte do
neto de 24 anos, há algum tempo atrás, ali para os lados da Portela, num
desastre de automóvel que vitimou cinco dos seus seis ocupantes, no
final de uma noite de excessos! E comenta apenas, no seu tom doce, digno
e triste – “...chegar a esta idade para ver partir os meus, um por
um...”
Abraçamo-nos no meio do passeio.
Eu, grande, ela, pequena. Ela, forte, a ensinar-me, eu, frágil, a
aprender. Alguns passantes olham-nos, curiosos. Limpo-lhe as lágrimas
discretas e pergunto-lhe como vai o “pacemaker” e como se entretém em
cada dia. Fala-me das suas rotinas: às 2ªs e 4ªs sai de casa, sempre e
ainda ao volante do seu carro!, para trabalhar com outras senhoras em
“registos” ( já os vi! Só queria que pudessem ver também, as
obras-primas que lhe saem das mãos...) e às 6ªs vai ao convívio da 3ª
idade, na sua Paróquia, para fazer e dar o lanche às “velhotas” ( e
sorri, marota,-“...eu chamo-lhes as minhas velhotas, mas a verdade é que
elas só têm 80 anos...).
Separamo-nos, comovidas. À nossa
volta, começam a chegar em bandos esvoaçantes, crianças das escolas
vizinhas, com os seus chapelinhos coloridos, correndo em direcção aos
baloiços. Ela e eu voltamo-nos para nos acenarmos uma à outra e para
vermos as crianças. Um passo mais e já não nos vemos mais. Separam-nos
um mar de crianças e um tapete de pétalas lilases de jacarandás. Uma
criança correu para ela, outra para mim. Uma professora aproxima-se
sorridente e explica : “...as crianças querem dizer aos adultos que não
existem só para receber...elas também têm muito para dar !” E recebo,
uma cartolina recortada por dedos inseguros e com letras tortas, coladas
por mãozinhas trémulas, a dizer assim : “ Gosto de si. Quer vir hoje
brincar comigo ? Dê-me um pouco do seu tempo, por favor!” Percebo o
desafio a mim e à comunidade. Nós, vizinhos, porventura distraídos,
destas escolas, somos convidados a visitá-las, a dar-lhes alguma atenção
e a parar para nos fazermos de novo crianças...Aceito, naturalmente.
À tarde atraso tudo,
conscientemente, mas vou visitar as crianças e o meu novo amigo, em
especial, o Miguel, de 5 anos, um menino de origem africana, cheio de
energia e afecto.
À porta da escola, encontro colada
uma frase em letras garrafais, pintadas pelas crianças, dizendo assim:
“Há sempre um momento na infância em que se abre a porta que deixa
entrar o futuro!( Graham Green)”.
Foi um tempo bem passado! De
regresso a casa, penso em tudo o que vi e vivi nesta tarde, e ponho-me a
vasculhar entre os meus papéis até encontrar este pedacinho de tesouro
imperdível, extracto de um livro que aqui transcrevo e me foi oferecido
há alguns anos atrás, por uma boa amiga, a Manel, quando eu ainda andava
nessas lides do ensino particular.
“Tudo o que eu devia saber na vida,
aprendi no jardim de infância :
A sabedoria não se encontra no topo
de nenhuma montanha, nem no último ano de um curso superior.
É num pequeno monte de areia do recreio do jardim de infância que
se pode aprender tudo o que é necessário saber na vida:
partilhar; respeitar as regras do jogo, não bater em ninguém ,
guardar as coisas nos sítios onde estavam, manter tudo sempre limpo, não
mexer nas coisas dos outros , pedir desculpa quando se magoa alguém;
viver uma vida equilibrada: estudar, pensar, desenhar, pintar, cantar,
dançar; brincar, trabalhar, fazer de tudo um pouco todos os dias. É o
que nós temos de fazer!!!
Afinal, o segredo de uma vida feliz
está nas pequenas verdades do dia a dia!”
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sugestões : fonsecas@netcabo.pt