Atravesso este pinhal maravilhoso, cheio da magia das
cores e cheiros de Outono, por entre o chilrear dos passarinhos. É Verão de S. Martinho e o mar chama por mim. Na manhã fresca de domingo, caminho pelo areal da praia
semi-deserta, em busca de uma solução. Sinto-me dividida. Que fazer? Calo-me? “O meu metro quadrado” não foi pensado para magoar, nem
ofender, apenas para ampliar e divulgar alguma coisa boa, mesmo que
infinitamente pequena, no meio da imensidade de material que a Comunicação
Social diariamente, nos traz. É verdade! Como resolver, então, esta questão? Aprendi de pequenina, que “ quem não se sente, não é filho
de boa gente”, por isso calada não posso ficar! Decido-me! Vou tentar! Para começar, devo confessar que de Arte pouco ou nada
percebo, mas em termos gerais, gosto muito de Pintura. Ontem, contudo, ao pegar
no Jornal Expresso, logo ali na primeira página, alertada por amigos, senti-me
tremendamente dividida entre espanto, tristeza e algum riso... Por um lado, não queria acreditar! “Aquilo”, obra de Paula
Rego, encomendada propositadamente pelo nosso Presidente da República, pretende
representar a Virgem grávida, a Virgem prestes a dar à luz? “Aquilo” destina-se
a uma Capela do Palácio de Belém, mesmo que seja “um espaço minúsculo, num local
semi-escondido”, mesmo que seja uma Capela onde já ninguém reza e onde se vai
apenas como quem vai a um museu? “Aquilo” é um de uma série de sete quadros? Estou certa, certíssima, de que outras grandes pintoras
portuguesas como Emília Nadal ou Graça Morais, ou porventura outros bem menos
conhecidos, como o meu amigo Edgar Silva (sim, o Edgar, aquele que vende os seus
quadros para conseguir juntar dinheiro para comprar os aparelhos auditivos e
pagar a operação que uma criança surda-muda precisa para poder conhecer e
comunicar com o mundo à sua volta!), ou mesmo o Rui Amorim (um simples professor
de Educação Visual, homem de grande valor e talento), ou o Francisco Neves
(pintor nas horas vagas e excelente pasteleiro no Mucifal!), estou certa,
repito, que qualquer deles seria capaz, com o seu talento, a sua sensibilidade e
delicadeza, de fazer algo de muito criativo e belo, que não envergonharia o Sr.
Presidente da República, nem a Capela do seu Palácio! Sei que as obras de Paula Rego são “incontornáveis” – como
se diz agora! - e sei também que o seu génio é muito apreciado e aplaudido
internacionalmente, sobretudo em Inglaterra, onde tem vivido. Conheço algumas...
Também a sua técnica é considerada de altíssima qualidade,
o que não tenho qualquer competência para julgar. Reduzo-me pois, à minha
insignificância...mas, sinceramente, tenho de confessar que, para meu gosto – e
creio não ser única! – este quadro é horrendo e execrável... desculpem o meu
atrevimento, mas ali, só escapam mesmo, o burro, a vaca e as estrelas! Contudo, o que mais me impressiona ainda é que “aquilo”,
como aliás acontece com toda a pintura de Paula Rego, pretende contar uma
história, mas “essa” história não pode ser certamente, a que todos conhecemos –
o episódio fulcral do nascimento de Jesus – que todos os cristãos, de todos os
tempos e lugares, conhecem, amam e veneram com um carinho especial. Não pode
ser! “Esta” história pretende por certo, “desmontar” e
destruir, para voltar a recontar os factos bíblicos, – que habitualmente todos
respeitam, tenham fé ou não, – segundo uma muito livre interpretação da pintora,
talvez para reproduzir algo de tão diferente e desafiador, que nos sintamos
interpelados, magoados e agredidos através do seu discurso mudo, mas
pictoricamente expressivo. Diria mesmo, que este quadro – com outro título – talvez
servisse bem uma qualquer campanha pró – aborto, por exemplo, pois não só a
parturiente assusta qualquer eventual candidata a engravidar, como o anjo ofende
qualquer obstetra ou parteira, dos muitos e bons profissionais que felizmente
existem, e que esses sim, quantas vezes são autênticos “anjos – bons” (isso
posso eu atestar, como mãe de 7 queridíssimos filhos). Diria mesmo, que para
ilustrar o Inferno de Dante, também poderiam servir, tão demoníacas e feias são
as expressões de ambos os rostos... Desculpem o desabafo e alguma ironia! Mas, digam-me, haverá alguma mãe normal, que não ache que
os seus filhos são sempre os mais bonitos e os mais queridos? E não é verdade,
que com igual raciocínio, todo o filho que se preze e que goste muito da sua mãe
– como é normal acontecer – se quer mostrar um retrato dela, mostra o mais
bonito que encontra e se calhar, até rasga os que estiverem mais feios, com
vergonha de que a achem feia? Paula Rego porém, preferiu pintar um Virgem feia,
acompanhada de um anjo feio, e isso choca, revolta e entristece! Talvez só
consiga ver um mundo povoado de gente feia e isso faz muita pena! Talvez seja
uma pessoa cheia de traumas, que precisa de os exorcizar pela pintura! Que pena,
repito! Mas como é possível transformar uma cena de presépio em
pintura de monstros e vê-la gabada e louvada, e ainda por cima paga por todos
nós, em tempo de crise, para colocar no Palácio e Capela do mais alto
representante da Nação? Será que ninguém vai ter coragem de dizer que “o rei vai
nu”? Por favor, digam alguma coisa, não se calem! Se o Sr. Presidente da
República me lesse ou ouvisse, eu pedir-lhe-ia licença, com todo o respeito e
sem ironia, para de verdade, lhe fazer uma sugestão, antes que seja demasiado
tarde! Calculo que estes quadros vão custar muito dinheiro, uma
verdadeira fortuna, ao erário público. Também sei que os encomendou, há 9 meses
atrás, quando ainda ninguém falava do estado calamitoso das nossas finanças.
Dado porém, que a todos nos vai ser pedida grande contenção nas despesas e
sacrifícios de monta, sugiro que os quadros mudem de título, e depois de pagos
(como parece que vai ter de acontecer), sejam leiloados e que o Sr Presidente
ofereça o produto a causas nobres mais urgentes...ou à própria Senhora Dr.ª
Manuela Ferreira Leite, nossa aflita Ministra das Finanças! O povo português que nunca visitou, nem visitará a
minúscula capela do Palácio, certamente aprenderia assim, directamente do Sr.
Presidente, bons exemplos de poupança mas, e sobretudo, de respeito pelas
convicções mais profundas de tantos de nós.
As circunstâncias da vida e alguns
acontecimentos, têm-me levado a reflectir intensivamente sobre questões como
a formação da consciência e o livre exercício da cidadania
(entenda-se o termo 'livre', não como levianamente é interpretado, de quem faz
o que lhe apetece como cidadão, mas uma liberdade de quem é "livre de", "livre
para" e "livre com"). Deparei-me
no passado domingo, dia 9 de Novembro, com o jornal Expresso, que trazia na
primeira página um dos oito quadros da pintora portuguesa Paula Rêgo,
encomendados pelo Sr. Presidente da República, para a Capelinha do Palácio de
Belém. O
primeiro pensamento foi de alegria e surpresa pelo facto de haver uma
capelinha na referido Palácio, lugar de tão importantes decisões. O segundo
foi de espanto e de ofensa! Também
por algum tempo fiquei a pensar que no "meu metro quadrado" teria mais uma vez
de divagar sozinha e depois "engolir". Na segunda feira, durante a habitual
navegação matinal na net, encontrei-me com um artigo que tinha por
título "o meu metro quadrado", e que expressava precisamente a indignação de
alguém diante da referida gravura. Decidi juntar a minha voz, ao ler a
interpelação da autora: "Será que ninguém vai ter a coragem de dizer que "o
rei vai nu"? Por favor, digam alguma coisa, não se calem!" Pois
é com alguma tristeza que também muito pouco percebo de arte. Conheço poucos
pintores, e infelizmente, ainda menos pintores portugueses (mea culpa!). Mas
mesmo sendo leiga na matéria, uma coisa eu sei que sei: reconhecer a beleza
quando a vejo (ou não vejo!). A um grande amigo (pessoa entendida em pintura)
muitas vezes ouvi dizer que chamamos de arte o que traz inscrito a dimensão do
Mistério. Sublinho, mais ainda quando se trata de temas religiosos. Um querido
autor francês, Maurice Zundel, fala de "obras de arte espirituais", como sendo
as que assim reconhecemos por serem "a voz do Silêncio", que nos coloca diante
da nossa própria interioridade.
Em resumo, a obra de arte, ao mostrar-nos um
rosto da beleza, deveria fazer crescer em nós o desejo de ajoelhar e
contemplar o Autor de toda a Beleza. Escusado
será dizer: não é o caso!
Muito me desagradaria ver ridicularizado alguém
que me fosse querido, e foi o que senti ao olhar para esta triste cena, que
não quero pensar que possa ser uma alusão ao acontecimento que há 2000 mil
anos veio trazer a Luz aos Homens. Ainda que possam contrargumentar que o
objectivo não era ridicularizar, custar-me-ia a achar respeitoso que a uma
fotografia da minha mãe fosse acrescentada barba e bigode... É
louvável a iniciativa do Sr. Presidente, promover os nomes de autores
nacionais, mas com o devido respeito, a obra em causa deve originar algumas
revoltas no túmulo aos nossos navegadores de outros séculos, que partindo da
ocidental praia lusitana, em perigos e guerras esforçados, mais do que
prometia a força humana, foram dilatando a Fé e o Império. Não posso deixar de
fazer memória do nosso D. Fernando, que ofereceu a sua vida para que os
altares das igrejas de Ceuta, consagrados a Deus, não fossem profanados... Bem
sei que a graça de Deus não se restringe diante dos limites humanos, e assim,
se estiver nos planos do Céu, acontecerá. Mas se depender da decoração da
Capelinha do Palácio de Belém, temo que neste Natal, o Sr. Presidente não será
levado a ajoelhar-se...fá-lo-emos nós por ele, pela sua família, pela autora
dos quadros e pelo futuro da ditosa Pátria nossa amada.
(Sara Serrano Ideias)