Estava mesmo a
precisar! Retirei-me por isso, por uns dias, para o coração do
Alentejo, lá onde o tempo passa mais devagar, onde os carros só
se ouvem vagamente, no intervalo do canto dos melros, das rolas
e cucos, lá onde entre espigas e papoilas coloridas passeiam
vagarosos bichos-de-conta e se afadigam formigas enormes. No
dia do regresso, virando as costas às velhas muralhas do castelo
e ao moinho no alto do monte, demorei-me ainda um pouco, com
algumas amigas, junto de uma pequena ermida, de visita a uma
lindíssima imagem, cópia da Virgem de Quito.
Bernardo
Legarda, escultor equatoriano do século XVIII, inspirado no
Apocalipse, esculpiu uma imagem invulgar : uma Virgem com
enorme diadema e brincos compridos, vestindo um manto de cores
vistosas, as mãos de lado quase em jeito de dança, segurando
uma corrente presa à cabeça de um dragão, símbolo da vitória da
Virgem sobre o Mal.
Voltei contente
e recuperada à família e ao frenesim da cidade, mesmo a tempo de
aceitar o amável convite da APCD- Associação Portuguesa para a
Cultura e Desenvolvimento - para ir ouvir a jornalista Fátima
Campos Ferreira falar sobre as suas impressões pessoais e o
trabalho realizado nos bastidores durante as reportagens sobre a
morte do Papa João Paulo II e a eleição do novo Papa Bento XVI.
Durante duas
horas e meia, ininterruptamente, com o seu conhecido poder de
comunicação, muita graça, inteligência e um invulgar talento
narrativo, a jornalista falou-nos dos momentos que mais a
tocaram, “pintou” verdadeiros quadros do que viu em Roma e a nós
não chegou, comentou as reacções das multidões que choraram a
perda de João Paulo II e se alegraram com a eleição de Bento XVI,
e descreveu as imensas dificuldades que a equipa da RTP só
conseguiu ultrapassar graças ao apoio do Cardeal Saraiva Martins
e sobretudo, da genial Irmã Terezinha, uma portuguesa das Pedras
Salgadas ! Basta dizer que só às dez da noite conseguimos
arredar pé da sala cheia, onde seguíamos atentamente as suas
explicações e o relato do que é a vida alucinante duma
jornalista triturada pela máquina insaciável da produção de
notícias!
E Fátima Campos
Ferreira, de facto, não deixou de estranhar ter ali uma plateia
tão interessada em notícias já “passadas”, “nós que vivemos sem
tempo para reflectir, numa sociedade egoísta e desumana” que só
vive de efemeridade e velocidade, ávida de emoções presentes e
futuras, correndo cada vez mais rápido e inexoravelmente para o
fim natural – a Morte - de que nem queremos ouvir falar.…
Agora porém,
que estou de volta ao ritmo habitual, deixem-me que vos abra o
coração e vos fale, também eu, dessa estranha sensação de correr
demasiado, sem chegar a ter tempo de viver a solidariedade
indispensável para com aqueles que vivem um dos piores males do
nosso tempo -a solidão.
Conheci a Frau
Malve G., uma tradutora alemã, de setenta e quatro anos, por
acaso. Um sobrinho meu, jovem e casado, a viver em Espanha, de
passagem por Lisboa, viu-a cair no chão, num supermercado aqui
próximo, no Verão passado. Ajudou-a a levantar-se, meteu-a no
carro e acompanhou-a a casa. Pelo telefone, pediu-me que me
interessasse pelo caso, suspeitando de graves carências e muito
isolamento.
Não vou
dizer-vos que fiz o que pude, porque mentiria.
Visitei-a sim,
mais que uma vez- sempre a correr!- mas sei que não lhe resolvi
nenhum dos seus vários problemas…Recentemente soube, que depois
de ter estado num domingo, horas e horas estendida no chão da
sua casa, finalmente os porteiros – um casal disponível e
bondoso - no regresso dum fim-de-semana na aldeia, acudiram-lhe
, chamaram uma ambulância e levaram-na para as urgências dum
hospital. Depois seguiram-se uma série de peripécias: do
hospital para um lar, do lar de novo para o hospital e do
hospital para o lar. Os médicos diziam que “ela desistira de
viver... talvez se tivesse mais visitas, mais apoio, mais
carinho…”
Quando a fui
visitar ao hospital, na camarata cheia de doentes e visitas, a
sua cama era a única que não tinha ninguém à volta. Frau Malve
G. parecia dormir. Branca de cal, o cabelo ainda ruivo apanhado
com um elástico, entubada, não deixava dúvidas quanto à
gravidade do seu estado, em parte causado por graves carências
de alimentação… Abriu os olhos, sorriu docemente para mim, quis
dar-me a mão e…foi a última vez que a vi e com ela troquei
algumas palavras. Saí dali decidida a tentar por tudo
interná-la num bom lar alemão de que ouvira falar. Entretanto,
já só a excelente Associação “Coração Amarelo” e uma jovem alemã
da Igreja Evangélica - em estágio de Serviço Social, creio!- a
visitavam. Sem família, sem raízes, sem saúde, Frau Malve G.
vivera estes últimos anos, conversando apenas com os seus muitos
passarinhos que saiam da gaiola sem porta e esvoaçavam
livremente por toda a sua casa.
Telefonaram-me,
uma ou duas semanas mais tarde, a informar da sua morte.
…Não pude
deixar de recordar de imediato, a história escrita por Irene
Lisboa e maravilhosamente lida em voz alta, num tom fascinante,
por uma professora que há alguns anos tive o privilégio de
conhecer e ouvir numa formação para professores : Violante
Florêncio.
Era a história
de uma menina , aluna da Primária, que andava sempre de laço
encarnado no cabelo e que gostava imenso da sua professora, uma
jovem no seu primeiro ano de trabalho, que vivia ansiosa e
preocupadíssima com as suas obrigações profissionais. Certo dia,
a menina adoece, é internada num hospital e manda recado à sua
professora, pedindo que a vá visitar. Todos os domingos a
professora pensa ir visitá-la, tem muito boas intenções, mas o
tempo vai passando e por um motivo de trabalho, ou outro, vai
sempre adiando. A menina, a princípio, ainda põe o laço vermelho
no cabelo, todos os domingos, para receber a visita da
professora. Pouco a pouco, porém, a tuberculose vai minando a
sua frágil saúde e quando finalmente, a professora se decide a
ir visitá-la, a menina já está morta…
Nunca mais
voltei a ouvir esta história, nem a reli, e posso eventualmente
não ter sido totalmente fiel neste “reconto”, mas confesso-vos
que ela me vem à cabeça muitas e muitas vezes, sobretudo de cada
vez que dou conta - com um frio na alma! - de não chegar a tempo
de dar uma mão a quem comigo se cruzou na vida e esperou por
mim…