O Papa João Paulo II partiu, ontem, dia 2 de Abril,
sábado, pelas 20.37 ( hora de Lisboa), para a Casa do Pai, depois de uma
longa e lenta agonia.
Reina um silêncio à minha volta.
“ (…) então foi Jesus com eles a um lugar
chamado Getsemani e disse-lhes: Sentai-vos aqui, enquanto eu vou ali
orar. (… )Depois foi ter com os discípulos, encontrou-os dormindo(…)
não pudeste vigiar uma hora comigo?(…)” (Evº Mat.26,36-41)
Também eu não consegui vigiar em espírito, nem
acompanhar as últimas estações da sua Via Sacra pessoal, as últimas
horas de vida do Papa… É verdade! Desliguei a televisão. Meti-me no
carro, fui apanhar chuva, ver o mar, as hortenses em botão, as
sardinheiras agora molhadas; distrai-me com duas tulipas cor de
fogo-alaranjado, e com uma osga no tecto. Abri de novo a televisão ,
lembrei-me dele, mas fui estudar um assunto que me interessava, folhear
um livro, fazer o gosto a um capricho; voltei à rua, comi, sorri,
conversei, desbaratei meu tempo, zanguei-me por um nada, recuperei a
paciência, lembrei-me de novo da sua agonia. Liguei o rádio, continua a
piorar, dizem; rezo depressa e mal, tenho o coração apertado; a chuva
bate forte nos vidros do carro; volto para casa, mas como sempre,
acordei para a realidade tarde demais, sempre com este sabor a pouco e a
muito menos do que podia e devia…
“Havia sal de lágrimas,
em volta dos teus olhos.
E Tu, grave e sereno, em mim os olhos punhas.
Pedir? Nada pedias…
Mudos também, Teus lábios.
Mudos. Mas é de então que eu oiço a Tua voz
e que me dói na alma
( como? Se não pediam…)
o apelo dos Teus olhos de olheiras de salitre.
Dá-me, Senhor, a arte de não perder de vista
Teus olhos e Teus lábios
-mudos, mas eloquentes;
discretos, mas precisos(…).
“ Cristo”, Sebastião da
Gama
Folheio e leio vários livros ao mesmo tempo. Ligo
de novo a televisão. Há um silêncio estranho na minha casa. A osga
continua lá. De repente, o mundo parece ter parado. Chegam-me imagens
impressionantes, de multidões em oração, silêncio, carinho e comoção.
Uma comunhão humana e sobrenatural que vence barreiras e fronteiras.
Depois, em cada canal de televisão, nacional e estrangeiro, todos
comentam, falam, aplaudem, respeitam e admiram, mesmo os mais cépticos e
os não-cristãos.
“Partiu para o Pai” aquele que foi
carinhosamente apelidado de “atleta de Deus”, “o último
gigante da nossa época”, “sinaleiro de Deus”, aquele que
afirmava que “ o problema da humanidade que mais me inquieta é o de
todos aqueles que ainda não conhecem Cristo, que ainda não descobriram a
grande Verdade do Amor de Deus. É ver a Humanidade que se afasta cada
vez mais do Senhor, que julga crescer deixando Deus de lado, ou
mesmo negociando a Sua existência. Uma Humanidade sem Pai e por
consequência, sem amor, órfã, desorientada, capaz de continuar a matar
os homens nos quais não reconhece os seus irmãos, e a preparar assim a
sua auto-destruição e aniquilamento. É por isso que eu quero
empenhar-vos de novo, a vós, os cristãos, a vós, os jovens, para que
sejais apóstolos de uma nova evangelização para construir a
civilização do Amor”( in As reflexões para o ano 2000, João
Paulo II).
Para nós crentes, o Papa partiu de facto, para o
Pai. Foi o retorno à Casa Paterna daquele que, sendo o Vigário
(representante) de Cristo na Terra, se esforçou por palavras e gestos,
por se identificar cada vez mais e totalmente com o próprio Cristo. Até
no modo, humanamente admirável e inexplicável, como viveu tantos e
indescritíveis sofrimentos, sempre no seu posto, diante de todos nós.
João Paulo II, consciente da visibilidade dos seus
males e do Mistério da Dor que só à luz da Cruz de Cristo encontra
explicação, quis “dar um sentido ao seu sofrimento”, que ele via
claramente como “ uma provação divina” e um “ dom necessário”.
“Meditei sobre tudo isto durante o meu
internamento”- afirmou o Papa no Angelus de 29 Maio de 1994-
“compreendi que o meu papel é conduzir a Igreja de Cristo em direcção
ao Terceiro Milénio através da oração, de iniciativas diversas, mas
também pelo sofrimento, devido ao atentado de há treze anos e deste novo
sacrifício.”(in João Paulo II, Bernard Lecomte).
Referia-se então à fractura do fémur, mas desde
essa data quantos novos sofrimentos, oferecidos por amor a Deus e por
toda a Humanidade!
É tempo de Páscoa, tempo de passagem para o Pai e
de Ressurreição.
Chegou ao fim o seu sofrimento, uma vida de total
entrega a Cristo e à Igreja, que somos todos nós. É tempo de agradecer,
mesmo que não o tenhamos sabido merecer.
Partiu aquele que corajosa e reiteradamente afirmou
“ o mundo da saúde e investigação está ao serviço da vida, para
permitir ao homem que viva todas as fases da sua existência na dignidade
(…) que lhe corresponde. A sociedade e as autoridades civis têm o dever
de proteger as pessoas, em particular as mais frágeis, perante os
eventuais excessos das ciências e das técnicas (…).
Recusar a vida aos mais fracos e aos deficientes
constitui uma verdadeira injúria a todos aqueles que por múltiplas
razões vivem nessa situação. Isso constitui um eugenismo
inconfessável! ( in As reflexões para o ano 2000, João Paulo
II).”
O Papa partiu, mas a sua Palavra permanece,
interpela-nos e continuará a interpelar-nos.
A recordação que cada um de nós guardará deste Papa
é certamente subjectiva, mas a sua Palavra e testemunho de Vida e Morte
são marcos objectivamente inapagáveis e pedem-nos uma resposta. Uma
atitude.
Sebastião da Gama acabava o seu belo poema “Cristo”
(de que só transcrevi parte) com estes versos:
Era de tarde. O Vento
dava nas ervas, punha-as
de rastros humilhadas.
Jesus passou.
-: Ergui-me.
E nós? Vamo-nos erguer
também?!
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