Educar na religião?

 

Convém educar as crianças em alguma religião?

Por G. K. Chesterton

(em Charlas, II, Acerca de las nuevas ideas,

Obras completas I, Ed. Plaza Janés, p. 1099-1100)

 

Eis uma frase que ouvi há dias a uma pessoa muito agradável e inteligente, e que ouvi também, centenas de vezes, a centenas de pessoas. Uma jovem mãe disse-me: «Não quero ensinar nenhuma religião ao meu filho. Não quero influir sobre ele; quero que seja ele a escolher por si mesmo quando for mais velho».

Este é um exemplo muito comum de um argumento corrente, que se repete com frequência e que, no entanto, nunca é verdadeiramente aplicado. É evidente que uma mãe sempre estará a influir sobre o seu filho. Da mesma maneira, a mãe poderia ter dito: «Desejo que seja ele a escolher os seus próprios amigos quando for mais velho; por isso não quero apresentar-lhe as primas e os primos». Mas a pessoa adulta não pode em nenhum caso escapar à responsabilidade de influir sobre a criança; nem sequer quando impõe a si mesma a enorme responsabilidade de não o fazer.

A mãe pode educar o filho sem lhe escolher uma religião, mas não sem lhe escolher um meio ambiente. Se ela optar por deixar de lado a religião, estará já a escolher um meio ambiente, e, além disso, um meio ambiente funesto e contranatural. A mãe, para que o seu filho não sofra a influência de superstições e tradições sociais, terá de isolar o filho numa ilha deserta e educá-lo aí. Mas será a mãe a escolher a ilha, o lago e a solidão; e é tão responsável por actuar dessa forma como se tivesse escolhido a seita dos menonitas ou a teologia dos mórmones.

É completamente evidente, dizem, para quem pense durante dois minutos, que a responsabilidade de orientar a infância pertence ao adulto, pela relação que existe entre este e a criança, completamente aparte das relações de religião ou de irreligião. Mas as pessoas que  repetem esta fraseologia não pensam nela mais de dois minutos. Não tentam unir as suas palavras a uma razão, a uma filosofia. Ouviram esse argumento aplicado à religião, e nunca pensam em o aplicar a outra coisa fora da religião. Nunca pensam em extrair essas dez ou doze palavras do seu contexto convencional e aplicá-las a qualquer outro contexto.

Ouviram dizer que há pessoas que resistem a educar os filhos na sua própria religião. Poderia haver igualmente pessoas que se recusassem a educar os filhos na sua própria civilização. Se a criança, quando for mais velha, pode preferir outro credo, é igualmente certo que pode preferir outra cultura. Pode zangar-se por não ter sido educado como um bom sueco burguês; pode lamentar profundamente não ter sido educado como um sandzmanian. Do mesmo modo pode lamentar ter sido educado como um cavalheiro inglês e não como um árabe selvagem do deserto. Pode – com a ajuda de uma boa educação geográfica –, enquanto examina o mundo da China ao Peru, sentir-se invejoso pela dignidade do código de Confúcio ou chorar sobre as ruínas da grande civilização inca. Mas, evidentemente, alguém teve de o educar para que pudesse chegar a esse estado de lamentar uma coisa ou outra; e a responsabilidade mais grave de todas é talvez a de não guiar a criança para nenhum fim.