|
Características dos 8 aos 11 anos
Introdução
E a idade do fazer,
produzir, projectar. Neste estádio de vida, as crianças crescem e aprendem rapidamente.
Estamos na maturidade da infância. Há que ter em conta, no entanto, que a evolução das
raparigas é mais rápida.
Quando chega aos 7 anos, já possui o seu carácter esboçado, a personalidade um pouco
definida e a inteligência desperta. Perante si mesma tem um novo caminho a percorrer:
alargar a sua consciência, alargar o conhecimento do mundo, ampliar o conceito das
coisas. Dizendo-o de outra maneira, tem ante si a possibilidade de introduzir o mundo no
seu interior.
Quando chega aos 7 anos, a criança volta a começar a vida. Esta a razão das crises que
costumam ocorrer neste momento, crises que nalguns casos assustam os pais, porque crêem
que o seu filho se torna tonto ou que perde a graça e a espontaneidade. Perante os novos
movimentos e concepções parece que duvida, que não compreende as coisas tão depressa
como dantes. Lentamente as dúvidas desaparecerão ante a maior firmeza dos conhecimentos,
a lentidão transforma-se novamente em rapidez perante a maior clareza das novas
concepções. Vencida a crise inicial, que em muitas crianças não se chega a dar, dia
após dia incrementa-se o desenvolvimento da personalidade, com a qual o carácter e a
afectividade - conservando o tom que já tinham - adquirem um aspecto mais definitivo.
Precisa de aumentar a confiança em si própria e nos outros. Tanto os pais como os
professores devem inculcar-lhe confiança nas suas atitudes e segurança em si mesma. Em
geral, é mais eficaz o elogio que a reprovação, mas vale mais esta que não dizer nada.
Não se pode ser indiferente: há que elogiar ou reprovar. O aluno introvertido reage
sensivelmente ao elogio, os extrovertidos precisam um pouco mais de repreensões.
Topo
1. Unidade e variedade da inteligência
A criança dos sete aos doze anos coloca a sua inteligência ao serviço da ampliação da
sua consciência. Neste período, a inteligência vai-se aproximando da sua plenitude e
pode ser definida como a faculdade com que elaboramos os novos conhecimentos adquiridos e
para resolver problemas que a vida nos coloca.
Ou seja, a criança já possui uma inteligência com capacidade para adquirir e elaborar,
mas é preciso não esquecer que a inteligência é um conjunto de facetas, de aspectos e
de funções diversas que podem fazer com que duas pessoas muito inteligentes o sejam de
maneira muito diferente. Este conjunto tende à unidade individual, ou seja, em cada
indivíduo há uma inteligência, mas é diferente de pessoa para pessoa, porque a sua
unidade fundamenta-se nesse conjunto de características diferentes, que o são na
qualidade e na intensidade. Não se encontram em todas as inteligências as mesmas
qualidades nem estas estão presentes com a mesma intensidade. Por outro lado, temos de
considerar que a inteligência de cada indivíduo se diferencia segundo as circunstâncias
do ambiente em que se desenvolve e segundo o tipo de rendimento que se lhe exige. Somente
assim se compreende que um indivíduo, considerado muito inteligente pelos que o conhecem
em determinado trabalho, seja considerado pouco inteligente pelos que o conhecem noutro
trabalho ou noutro ambiente, onde o seu rendimento é diferente. Assim se compreende
também que as crianças pareçam muito inteligentes na escola e o pareçam menos na vida
social, ou que alcancem níveis elevados numa disciplina e não passem da mediocridade
noutra.
Topo
2. A intuição
Dissemos anteriormente que a criança, à medida que se ia tornando mais rica em noções,
ia empobrecendo em intuições, mas que isto não significava que ela deixasse de ser
intuitiva. Nesta etapa, ela continua a ser intuitiva em maior ou menor grau e continuará
a sê-lo sempre, porque a intuição é um auxiliar admirável da inteligência, quase um
elemento próprio. Tal como a inteligência, a intuição proporciona-nos conhecimentos.
Mas não os faculta por possessão antecipada do que se deve saber, enquanto que a
inteligência os proporciona por meio da investigação.
Diferença essencial entre intuição e inteligência: com a intuição conhecemos as
coisas sem saber como nem porquê, mas com a inteligência sabemo-lo. A intuição é a
mentalidade em inspiração. A inteligência é a mentalidade em exercício. Daí que só
podemos intuir uma coisa numa única vez, enquanto podemos reflectir sobre ela várias
vezes.
Topo
3. A criança entra no uso da razão
Dos sete aos doze anos, a consciência da criança alarga-se cada vez mais com a ajuda da
inteligência e da intuição. E diferente da consciência das idades anteriores, porque
não é formada somente por factos e conhecimentos, sujeitos e objectos, mas pela posse e
elaboração das ideias, ou seja, começa a pensar em abstracto.
Ela começa a usar a razão. Vai sendo capaz de julgar as coisas como bem e mal feitas.
Por volta dos 10 - 11 anos começa a manifestar sintomas de espírito crítico e de
rebeldia.
Com todas as suas faculdades, ajuíza do valor das coisas e, avançando em maturidade,
alcança a razão que é o encadeamento dos juízos. Este encadeamento produz-se passando
dum juízo para outro, mantendo estreita relação entre eles, de modo que os últimos
juízos dependem ainda dos primeiros.
Até agora, o pensamento da criança produzia-se espontaneamente sem nenhuma direcção.
Na criança dos sete aos doze anos, o pensamento organiza-se, tendo uma direcção, prevê
as coisas que podem acontecer: trata-se dum pensamento racional. Agora, o seu pensamento
já não é um simples jogo, tem uma finalidade. Pretende dar à consciência o valor de
uma coisa universal, o valor duma consciência social, de introduzir o mundo dentro de si.
Assim, a criança não perderá nada da personalidade peculiar; pelo contrário, será
menos um indivíduo e será mais uma pessoa que pensa em si, mas em uníssono com um
pensamento universal, com uma consciência social.
Topo
4. A criança entra na vida séria
Ao entrar no uso da razão, a criança começa também a entrar na vida séria. É mais
responsável pelos seus actos ou, pelo menos, é capaz de progredir mais rapidamente no
sentido de responsabilidade. Começam a notar-se mudanças na sua posição dentro da
família, da escola e da sociedade. Por um lado não se conforma com um papel totalmente
infantil, por outro exigem-se-lhe atitudes e trabalhos mais importantes. Na família, já
não é um ser a quem se dá tudo feito. Ela também tem de fazer alguma coisa para si e
para os outros. Na escola, os conteúdos escolares aumentam em quantidade e dificuldade,
perdem em graça e encanto e, sobretudo, fazem penetrar na consciência da criança a
ideia de que se dirigem à consecução de alguma coisa que só se obterá num futuro
remoto.
A sociedade também começa a tratar a criança de outra maneira. Respeita-a de maneira
diferente de quando tinha 3, 5 ou 7 anos; não lhe dá passagem com tanta facilidade, tem
de aguardar a sua vez numa bicha. Mais ainda, impelem-na ou obrigam-na a estar presente
numa festa, num desfile ou nalguma concentração onde se considera como um número mais,
como um indivíduo.
Precisa de assegurar a sua posição nalgum grupo social. Daí, a procura e o incremento,
nesta idade, dos grupos, clubes secretos, etc.
Tem afã de prestígio e procura-o na estatura, na força, no dinheiro, em jactâncias e
rivalidades.
É precisamente neste momento que perde algo da sua maravilhosa e primitiva liberdade,
começa a intuir que é um ser independente e quer actuar com independência. A criança
precisa de sentir, nesta idade, a responsabilidade de realizar os seus projectos ou
encargos, de encontrar oportunidades de se fazer valer e de experimentar certa liberdade
nas suas acções. Enquanto vai fazer o recado à mãe, procura o insecto para um trabalho
escolar, volta dum acto público que a organização a que pertence o encarregou, converte
paradoxalmente a sua nova missão num acto de independência, que assume muitas vezes
dentro da sua vida interior, vivendo na sua imaginação as façanhas de um Robin dos
Bosques ou de qualquer outro herói da lenda.
A esta suposta independência acrescenta o seu constante "porquê", que se vai
tornando menos infantil e mais especulativo. O seu "porquê" adquire mais
lógica e perde conformidade. Aponta para mais longe e não se contenta com uma resposta
simples ou parcial. Pergunta fora do seio da família, pergunta ao colega, ao professor,
ao livro; mas, sobretudo, pergunta a si mesma. Até aqui tinha adaptado a realidade ao seu
Mundo interior. A partir de agora pressente que terá de acomodar o seu mundo interior á
realidade que a circunda. E, às vezes, mistura graciosamente o gesto imaginativo de
lançar uma flecha, como Robin, com a atitude de quem vai às profundidades do pensamento.
Se os seus pais estão atentos às suas necessidades espirituais e se o seu professor é
inteligente, verificam com agradável surpresa que a criança já não só é uma
criança, mas que se vai convertendo num amigo. Então pode ocorrer o mais maravilhoso e
construtivo dos diálogos que por desgraça se malogra muitas vezes por culpa de um pai
excessivamente atarefado, quando não distraído, ou por um mestre pedante, quando não
negligente.
Durante este período de iniciação da emancipação dos adultos, a criança tem
necessidade de carinho e boa orientação. Precisa de sentir que goza da confiança dos
seus pais e educadores. Precisa de diálogo.
Quer haja diálogo ou não, a criança completa a sua busca de conhecimentos com um
monólogo constante em que analisa tudo o que a realidade lhe oferece, tudo o que o ensino
lhe fornece e, talvez acima de tudo, o que a sua inquietação pelo saber lhe faz
descobrir.
Topo
5. Comportamento, sobretudo, a
partir dos 10 anos
Em casa: Aumenta o interesse para com o pai. No entanto, aparecem os primeiros sintomas do
desejo de independência. Prefere não participar nas saídas familiares. O que na verdade
lhe interessa é o "grupo".
No colégio: Sente ânsias de competir, de ganhar, de fazer-se notar. Entusiasmam-no os
jogos de equipa e o seu sentido de solidariedade dentro do grupo é enorme. O espírito
competitivo e de rivalidade entre as diversas quadrilhas é também notável...
Durante algum tempo, mais ou menos curto - conforme demore muito ou pouco a aparecer o
período da puberdade -, a criança recuperará aquela primitiva intuição que lhe deu os
primeiros conhecimentos e imaná-los-á com a nova razão adquirida, chegando com as duas
a um dilatado caudal de saber.
Quantas lendas de fadas de gigantes, acumuladas por uma triste insensatez dos mais velhos,
cairão neste momento! Quantos enredos, quantas respostas inexactas, quantas falsidades
não serão postas em evidência e desmembradas peça a peça!
A criança, talvez sem se dar conta disso, começa a reconstruir o seu conceito da
realidade, partindo da base de que as coisas não são o que são, mas o que deviam ser;
que as coisas não se hão-de imaginar como lhe eram apresentadas, mas como deveriam ser.
Deste modo, a criança com a sua razão iluminada pela fé , intui a necessidade
iniludível de princípios morais a que se deve ajustar a vida e verificará se a eles se
ajustam os actos dos outros; a partir deste momento já não perguntará somente: E isto
porquê? Mas dirá: "Isto está bem".
As suas ideias morais são práticas e a sua interpretação da lei é literal e absoluta.
Ou seja, a criança terá transformado a consciência do puro acontecer psíquico numa
consciência moral e compreenderá pela primeira vez de maneira clara, se não o total
significado, pelo menos o valor absoluto dos Dez Mandamentos. O seu interesse e
preocupação pelas questões sexuais aumentam consideravelmente.
Topo
|