Decreto-Lei n.º 3/2003 de 7 de Janeiro
 

A família constitui um valor fundamental e inalienável da sociedade   actual,  reconhecido pela Constituição da República Portuguesa, sendo imperioso conferir-lhe uma protecção e uma assistência adequadas a fim de contribuir para o desenvolvimento pleno das suas funções específicas no seio da sociedade.

O XV Governo Constitucional reconhece e destaca no respectivo Programa o papel essencial da família como espaço privilegiado de realização da pessoa e de reforço da solidariedade entre gerações, preconizando a prossecução de  políticas integradas e coerentes que promovam as potencialidades da família.  Nesse contexto, é dever do Estado cooperar, apoiar e estimular o  desenvolvimento da instituição familiar, não devendo, porém, substituí-la nas  responsabilidades que lhe são e devem ser próprias.

Considerando a universalidade e a transversalidade das políticas com  incidência familiar, o desenvolvimento harmonioso e sobretudo eficaz das mesmas não pode cingir-se à mera sobreposição das políticas sectoriais e carece de uma coordenação globalizante que privilegie uma actuação abrangente e alargada a todos os membros da família, dos mais jovens aos mais idosos.
 
Nesse sentido, o Governo cria com o presente diploma o cargo de coordenador nacional para os Assuntos da Família, dando corpo ao preceito constitucional e promovendo a instituição familiar no plano social, económico e cultural.
 
A dignificação da instituição familiar e a criação das condições essenciais para o pleno desenvolvimento da pessoa legitimam a nomeação de um alto responsável que assegure a coordenação das diferentes políticas sectoriais com incidência familiar, assegurando a natureza global e universal de qualquer intervenção.

Pelo presente diploma são igualmente criados um órgão consultivo e um órgão de natureza técnica e operacional, que são o Conselho Consultivo para os Assuntos da Família e o Observatório para os Assuntos da Família.

 O Conselho Consultivo para os Assuntos da Família constitui um órgão de natureza consultiva do Governo, com uma representação alargada e no qual se incluem as associações representativas das famílias, tendo em vista colaborar e participar na prossecução da política de família.

O Observatório para os Assuntos da Família desdobra-se numa unidade de coordenação e planeamento e numa unidade técnica que visa recolher dados estatísticos, realizar estudos e processar informação relativa às famílias com o objectivo de contribuir para a realização de diagnósticos e avaliações sobre a execução das medidas com incidência familiar.

As constantes mutações sociais e os novos desafios com que se depara a sociedade actual justificam um acompanhamento permanente da evolução e do impacto das políticas familiares a fim de evitar a fragilização da estrutura familiar. O acompanhamento e análise da política familiar deverão igualmente considerar as diversas realidades e as diferentes necessidades específicas de cada família.

Assim:
Nos termos da alínea a) do n.º 1 do artigo 198.º da Constituição, o  Governo decreta o seguinte:
 

CAPÍTULO I
Artigo 1.º
Objecto

O presente diploma cria o cargo de coordenador nacional para os  Assuntos da Família, o Conselho Consultivo para os Assuntos da Família e o Observatório  para os Assuntos da Família.

 

 Artigo 2.º
Coordenador nacional para os Assuntos da Família

A actividade desenvolvida pelo coordenador nacional para os Assuntos da  Família, adiante designado por coordenador nacional, visa contribuir para o desenvolvimento e a valorização da família.
 

Artigo 3.º
Competências

 Compete ao coordenador nacional:
a) Coordenar os programas, os projectos e as acções que reconheçam e valorizem a importância da família na sociedade e o seu contributo para a realização das pessoas e da solidariedade entre gerações;
b) Assegurar o carácter global e integrado das diferentes políticas sectoriais e redistributivas com incidência familiar;

c) Propor medidas de protecção e de apoio à maternidade e à  paternidade;
d) Propor medidas de protecção à infância e à formação das crianças;
e) Propor medidas de protecção às pessoas idosas;
f) Contribuir para a promoção de condições para a conciliação das responsabilidades familiares e profissionais;
g) Propor e coordenar um sistema de informação sobre dados relativos  às famílias;
h) Apoiar o voluntariado e as instituições particulares de solidariedade social que desenvolvam actividades no âmbito da política da família;
i) Propor medidas tendentes ao aprofundamento do associativismo familiar.

 

Artigo 4.º

Nomeação

O coordenador nacional é nomeado pelo Primeiro-Ministro, sob proposta do Ministro da Segurança Social e do Trabalho.


Artigo 5.º
Funcionamento

1 - O coordenador nacional exerce funções junto do Ministro da Segurança Social e do Trabalho.

 2 - O coordenador nacional é apoiado por uma estrutura de apoio  técnico constituída por pessoal recrutado de acordo com os mecanismos de mobilidade legalmente previstos e designada por despacho do Ministro da Segurança Social e do Trabalho.

 
CAPÍTULO II
Artigo 6.º
Conselho Consultivo para os Assuntos da Família

1 - O Conselho Consultivo para os Assuntos da Família, adiante designado por Conselho Consultivo, é o órgão consultivo do Governo para as questões de natureza familiar e visa assegurar a participação e colaboração dos órgãos políticos e das organizações não governamentais representativas da família.

2 - O Conselho Consultivo é presidido pelo coordenador nacional e tem  a seguinte composição:

a) Um representante do Ministro de Estado e das Finanças;
b) Um representante do Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas;
c) Um representante do Ministro da Administração Interna;
d) Um representante do Ministro da Justiça;
e) Um representante do Ministro da Presidência;
f) Um representante do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro;
g) Um representante do Ministro da Economia;
h) Um representante do Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural  e Pescas;
i) Um representante do Ministro da Educação;
j) Um representante do Ministro da Ciência e do Ensino Superior;
l) Um representante do Ministro da Cultura;
m) Um representante do Ministro da Saúde;
n) Um representante do Ministro da Segurança Social e do Trabalho;
o) Um representante do Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação;
p) Um representante do Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente;
q) Um representante do Governo Regional da Madeira;
r) Um representante do Governo Regional dos Açores;
s) Um representante da Associação Nacional de Municípios Portugueses;
t) Dez representantes de organizações não governamentais representativas da  família;
u) Quatro personalidades de reconhecido mérito na área da família.
 

3 - Os representantes referidos nas alíneas t) e u) do n.º 2 são designados bienalmente pelo Ministro da Segurança Social e do Trabalho, mediante proposta do coordenador nacional.
 

 Artigo 7.º
Competências

Compete ao Conselho Consultivo, sem prejuízo de emissão de parecer por solicitação do Ministro da Segurança Social e do Trabalho ou do coordenador nacional, por iniciativa própria ou a pedido de qualquer dos seus membros:

a) Participar na definição da política de família;
b) Pronunciar-se sobre os projectos de diploma relativos às políticas com incidência familiar;
c) Participar na definição de medidas e acções que contribuam para a prossecução da política de família;
d) Exercer as demais competências que lhe sejam atribuídas por lei.
 

Artigo 8.º

Funcionamento

1 - O Conselho Consultivo reúne em plenário, deliberando por maioria desde que esteja presente pelo menos a maioria dos seus membros.
 
2 - O Conselho Consultivo reúne ordinariamente seis vezes por ano e extraordinariamente sempre que o presidente o considere necessário ou quando tal seja solicitado por um terço dos seus membros.

3 - O presidente do Conselho Consultivo estabelece a ordem de  trabalhos das reuniões plenárias e assina a respectiva acta.

 

Artigo 9.º
Regulamento interno

O Conselho Consultivo elabora o seu regulamento interno no prazo de 90 dias após a entrada em vigor do presente diploma, o qual pode prever o funcionamento de grupos de trabalho restritos para apreciar questões específicas.

 
CAPÍTULO III
Artigo 10.º
Observatório para os Assuntos da Família

1 - O Observatório para os Assuntos da Família, adiante designado por Observatório, constitui uma sede de análise conjunta da problemática relativa aos assuntos da família que funciona na dependência do coordenador nacional.
 
2 - O Observatório tem como principais objectivos:
a) A análise do impacte das políticas familiares;
b) A avaliação e o acompanhamento da evolução das políticas familiares;
c) A divulgação da informação referente ao desenvolvimento integrado das políticas familiares;
d) A recolha, tratamento e divulgação de dados estatísticos sobre matérias de natureza familiar.
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3 - O Observatório elabora e divulga um relatório anual sobre a actividade desenvolvida e sobre a execução das medidas com incidência familiar.
 
4 - O Observatório promove a realização de estudos ou outras obras de carácter científico, podendo celebrar protocolos com as instituições universitárias e de investigação.

5 - O Observatório pode promover o desenvolvimento de parcerias com  outras entidades ou organismos que desenvolvam actividades com incidência familiar.
 

Artigo 11.º
Organização

1 - O Observatório é constituído pelo Conselho Coordenador e pela  Unidade Técnica de Observação Permanente.
 
2 - O Conselho Coordenador do Observatório é composto por:
a) Coordenador nacional, que preside;
b) Dois membros do Conselho Consultivo, cooptados de entre os seus membros;
c) Duas pessoas de reconhecido mérito, a designar pelo Ministro da Segurança Social e do Trabalho.
 
3 - A Unidade Técnica de Observação Permanente é constituída por pessoas recrutadas de acordo com os mecanismos de mobilidade legalmente previstos e designadas por despacho do Ministro da Segurança Social e do Trabalho.
 

Artigo 12.º
Competências

1 - Compete ao Conselho Coordenador do Observatório planear e coordenar toda a actividade da Unidade Técnica de Observação Permanente na prossecussão dos objectivos do Observatório.
 
2 - À Unidade Técnica de Observação Permanente compete a execução das tarefas necessárias à prossecução dos objectivos a que se refere o número anterior, atentas as directrizes emitidas pelo Conselho Coordenador, nomeadamente recolher dados estatísticos, realizar estudos e processar informação relativa  às famílias, com o objectivo de contribuir para a realização de diagnósticos actualizados e para a formação da política de família.
 

CAPÍTULO IV
Artigo 13.º
Dever de cooperação

Todos os serviços e organismos da Administração Pública devem prestar ao coordenador nacional, ao Conselho Consultivo e ao Observatório a colaboração por eles solicitada e devem dar sequência às medidas a desenvolver nas respectivas áreas de competência.
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 Artigo 14.º
Estatuto remuneratório

O coordenador nacional aufere uma remuneração correspondente a 80% do  índice 100 do pessoal dirigente.
 

Artigo 15.º
Financiamento

1 - A Secretaria-Geral do Ministério da Segurança Social e do Trabalho assegura o apoio logístico, administrativo e financeiro ao funcionamento do coordenador nacional, do Conselho Consultivo e do Observatório.
 
2 - Os donativos, subsídios e comparticipações concedidos por quaisquer pessoas, singulares ou colectivas, ficam afectos às medidas de protecção à família.
 
3 - Os donativos, subsídios e comparticipações referidos no número anterior beneficiam do Estatuto do Mecenato, nos termos legalmente previstos.
 

Artigo 16.º
Norma revogatória

1 - São revogados o Decreto-Lei n.º 248/97, de 19 de Setembro, e o Decreto-Lei n.º 150/2000, de 20 de Julho.

2 - Todas as referências legais e contratuais à Comissão Nacional de  Família e ao Conselho Nacional para a Política de Terceira Idade consideram-se feitas ao coordenador nacional.
 
Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 16 de Outubro de 2002. -
José Manuel Durão Barroso - Maria Manuela Dias Ferreira Leite - António Manuel de Mendonça Martins da Cruz - António Jorge de Figueiredo Lopes - Maria Celeste Ferreira Lopes Cardona - Nuno Albuquerque Morais Sarmento - José Luís Fazenda Arnaut Duarte - Carlos Manuel Tavares da Silva - Armando José Cordeiro Sevinate Pinto - José David Gomes Justino - Pedro Lynce de Faria - Pedro Manuel da Cruz Roseta - Luís Filipe Pereira - António José de Castro Bagão Félix - Luís Francisco Valente de Oliveira - Isaltino Afonso de Morais.

Promulgado em 20 de Dezembro de 2002.
Publique-se.
O Presidente da República, JORGE SAMPAIO.
Referendado em 23 de Dezembro de 2002.
O Primeiro-Ministro, José Manuel Durão Barroso.
 

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