Nota
introdutória
Este é o quarto número do
boletim “QUÊS E PORQUÊS – As
perguntas sobre liberdade e
igualdade de oportunidades de
educação”, da responsabilidade
do Fórum para a Liberdade de
Educação.
Poderá consultar os números
anteriores do QUÊS E PORQUÊS na
página da Internet do Fórum para
a Liberdade de Educação,
www.liberdade-educacao.org.
Lembramos que este é um texto em
construção, pelo que todas as
questões e comentários são bem
vindos.
CONTAMOS COM A SUA PARTICIPAÇÃO!
Os principais entraves à
liberdade e igualdade de
oportunidades de educação são,
por um lado, a cultura
paternalista que desconfia das
iniciativas que não estejam
debaixo do controlo do Estado e,
por outro, a débil consciência
dos cidadãos acerca do que são
os deveres e os direitos numa
democracia autêntica.
Estes entraves, com raízes
históricas profundas, têm sido
alimentados com diferentes
justificações em diferentes
épocas da nossa história, mas
sempre com o intuito de servir
os projectos do poder dominante
em Portugal. Apesar destes
projectos serem distintos nos
seus princípios, a verdade é que
sempre convergiram na manutenção
de um sistema educativo
centralizado que considera os
cidadãos incapazes de exercerem
a liberdade de escolha na
educação, isto é de exercerem
totalmente a democracia na
educação.
As principais manifestações
desta cultura, que se traduzem
noutros tantos entraves à
liberdade e igualdade de
oportunidades de Educação, são:
-
O
monopólio estatal na prestação
dos serviços públicos:
confunde-se o dever do Estado
garantir os direitos e
liberdades, designadamente no
que respeita ao acesso ao ensino
de qualidade, com a prestação
propriamente dita do serviço.
Com esta visão, todos nos
tornamos co-responsáveis com a
asfixia da qualidade do ensino
que poderia advir da iniciativa
das comunidades locais –
entidades sem fins lucrativos,
cooperativas, grupos de
professores, empresas, entre
outros – e com a monstruosidade
do actual sistema, onde nunca
alguém conseguirá
simultaneamente gerir e ser
regulador dos interesses e
objectivos tantas vezes em
conflito entre si.
-
O
centralismo burocrático:
o sistema educativo é
excessivamente centralizado e
burocrático, não acreditando na
deontologia profissional dos
professores e na capacidade de
autonomia das escolas. Exemplos
disso são a vigência de apenas
um contrato de autonomia entre
uma escola e a administração
educativa, a inflexibilidade dos
currículos em função das
necessidades dos diferentes
alunos – que se manifesta na
fraca diversidade dos projectos
educativos nas escolas – ou o
concurso de professores feito
centralmente, como se o corpo de
professores de uma escola não
tivesse de actuar e sentir em
equipa e bastasse ser uma soma
de indivíduos actuando
isoladamente. A tentação de
gerir os milhares de escolas que
compõem a rede escolar a partir
da administração central ou
mesmo das cinco direcções
regionais, gera (1) um excesso
de regulamentação e a
inoperância das escolas face à
impossibilidade de decidir, (2)
a insistência num modelo único
de escola, desenquadrado da
realidade de cada comunidade
educativa e das suas
necessidades e (3) a
desresponsabilização da escola e
demais agentes educativos locais
sobre a qualidade e o sucesso
educativo dos seus alunos.
-
A
falsa ilusão de igualdade:
o Ensino é por todos reconhecido
como um forte instrumento de
desenvolvimento pessoal e
social, e como tal joga-se no
sistema educativo uma forte
componente de promoção da
liberdade e da igualdade de
oportunidades entre os cidadãos.
A resposta a este desafio tem
sido a promoção de um sistema de
modelo único, como se por terem
regras iguais, todas as escolas
fossem realidades iguais. Ora
debaixo desta falsa ilusão de
igualdade escondem-se realidades
bem distintas, e como sempre em
sistemas opacos, são os mais
desfavorecidos, aqueles que não
conseguem jogar com os buracos
do sistema, que ficam mais
prejudicados, e permanecem nas
escolas com piores equipamentos,
maior instabilidade de
professores ou maiores índices
de violência.
-
A
desresponsabilização dos
cidadãos, em particular das
famílias: ao obrigar
os pais a matricular os filhos
na escola da sua área de
residência, o Estado retira aos
pais um direito e um dever
fundamental no âmbito da sua
responsabilidade de pais: o
direito e o dever de escolha da
escola que melhor coopera com
eles na educação dos filhos. Se
os pais são obrigados a ter um
filho numa escola que consideram
não os vai ajudar na educação
desse seu filho, fica quebrada a
relação de confiança entre a
escola e a família e a educação
torna-se ainda mais difícil,
quer para os pais quer para os
professores. É evidente que há
outros factores que explicam o
divórcio entre a escola e a
família, mas é bem sabido que
este divórcio é muito menor nas
escolas onde os pais estão
contentes por nelas terem os
filhos. Num momento em que o
número de alunos baixa e há
escolas com vagas, Portugal
deveria introduzir a liberdade
de escolha da escola que muitos
países europeus já têm ou têm
vindo a generalizar.