CASTIDADE: UMA VIRTUDE MUITO SILENCIADA - I

 

Por várias vezes, em artigos anteriores, se tem procurado chamar a atenção para a forma como se está a falar aos nossos jovens da sua vida sexual na nossa sociedade e nos ensinamentos com que os variados programas escolares abordam esta temática.

O problerma não é só português, mas de todo o horizonte cultural a que, vulgarmente, se denomina por civilização ocidental.

A juventude não pode deixar de reflectir o feixe de preocupações ideológicas e de disposições comportamentais que o mundo adulto pratica e incentiva, porque ela é o objecto – ou deve ser – prioritário das suas preocupações educativas e também um espelho do que dele recebe.

E aqui começa o problema. O nosso mundo adulto gere-se por critérios de conduta e de orientações éticas eivados de egoísmo e de hedonismo. Eles manifestam-se sem recato no seu dia a dia, onde a busca da satisfação de bem estar – legítima e compreensível, desde que virtuosa – ocupa a sua incidência essencial. O que importa é a qualidade de vida de cada um, entendendo-se por isto uma existência amena, despreocupada, garantida pelos mecanismos económicos e sanitários que a evolução social e científica permite. Viver o presente com a vertigem do aproveitamento integral do seu lado prazenteiro, tornou-se o escopo fundamental dos nossos cidadãos. E com uma dimensão tão exclusivista e determinada, que todo o resto dos valores da vida humana passam a ser como que satélites deste sol dominante.

O resultado óbvio, em relação à vida familiar, é encarar os filhos como um problema externo e até arriscado para a felicidade do casal. As pessoas que se unem fazem-no para viver a duo uma bem-aventurança compartilhada, que não pode, no entanto, perturbar-se com preocupações que desgastem a vida do par. A prole, nesta perspectiva, só deverá aparecer se o “status” que ambos  programaram para a sua “qualidade de vida” não se deteriorar. Ter filhos, por outras palavras, não aparece como uma consequência própria de um homem e duma mulher decidirem compartilhar uma vida íntima em comum, sabendo que a natureza foi dotada com as suas leis e esta convivência, duma forma consequente, costuma produzir os seus efeitos adequados com o aparecimento dos filhos. Estes apenas devem surgir se a harmonia do casal não for beliscada.

Quando um homem e uma mulher se colocam neste plano, a vontade de educar uma prole tem apenas dimensões funcionais e utilitárias. Os filhos, em si, não são um bem. Educá-los encara-se como uma tarefa espinhosa, que suga a atenção do casal. Prioritariamente, sobrepõem-se os projectos de realização pessoal dele e dela, que se traduz, habitualmente, numa vida profissional exigente e sugadora das energias de cada um. Os filhos só podem vir se os seus horizontes de carreira e de afirmação laborais não se virem tocados com os desvelos que eles requerem. Por isso, é difícil arranjar espaço vital para que nasçam e, muito menos, para serem educados. O essencial é a vida em comum de entre-ajuda dos dois, a fim de que o referido projecto de um e do outro não se iniba. Ter filhos é uma espécie de contra-vapor deste propósito. Daí que eles se considerem como um epifenómeno da intimidade e não como uma sua consequência natural.

A baixa terrível da natalidade que se verifica na nossa sociedade ocidental emerge, em boa parte,  aos olhos de quem queira ver como um sucedâneo de tal atitude.

Uma juventude orientada por estes parâmetros, copia os exemplos dos adultos. Em relação ao sexo, compreende que deve ter cuidado com ele, porque o seu funcionamento natural pode ser procriador. Logo, o lógico é que dele se sirva com os mesmos meios e a mesma intencionalidade dos seus progenitores, que lhes transmitem muitas precauções e temores  sobre os seus riscos de fertilidade, ficando-se quase por aqui o que lhes ensinam.

Continuaremos na próxima semana.

 

 Rui Rosas da Silva